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HOMENAGENS DO POETA  
 

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

joaocabral

João Cabral, fotografado por Éder Chiodetto

 

A MORTE DE JOÃO CABRAL

Perplexo com a morte de João Cabral, embora, pela idade e doença, qualquer um a pudesse esperar ou prever, para qualquer momento.

Cego, sem escrever há pelo menos cinco anos, o que lhe sobrava? .Para ele, escrever era ver. Alguma coisa como o que disse, num poema (A Luz de Joaquim Cardozo): "Escrever de Joaquim Cardozo / só pode quem conhece / aquela luz Velásquez / de onde nasceu e de que escreve ... ".

Vidente, numa acepção intensa e nova da palavra. O ato de escrever como ato de alcançar, de distinguir, de presenciar. Escrever poemas como ato de imaginação: " Certo poema imaginou que a daria a ver / (quando dentro da dança) com a chama ...".

Maior, melhor, grande são termos que não dão conta do alcance, do valor, da extensão e da profundidade do trabalho de João Cabral-um cosmopolita (que, para ser poeta e brasileiro, viu-se obrigado a morar fora do País), antilírico, escrevendo contra a maré mediana da língua .Ao contrário de Drummond — outro "grande" — o antipároco! Aquele que, "estrangeiro", impediu a diáspora da poesia brasileira e a sustentou num tom elevado, acima do de, por exemplo, Octavio Paz ou Derek Walcott, para citar dois ganhadores recentes do "prêmio" Nobel.

O que dizer diante da morte de uma espécie de "deus", num momento crítico para a poesia, no qual a idéia de cultura se perde na de mercancia ? No qual o conceito de civilização se dilui no de vingança ? Recorro a Murilo Mendes, a maior figura de poeta do Brasil no Século 20: "comigo e contigo o antifascio ... ". Assombro diante desta morte que nos deixa ainda mais lacerados.

Assombro diante da morte deste escritor que nos mostrou que a imaginação exige vigor e não apenas sonho ; que exige talento e não somente desejo ou para me valer de um trecho do poema "Más Allá", de Jorge Guillén, um de seus mestres: " No, no sueño. Vigor / De creacíon concluye / Su paraíso aqui: / Penumbra de costumbre. / Y este ser implacable / Que se me impone ahora / De nuevo — vaguedad / resoviendose en forma ...". Assombro e medo com a morte de João Cabral, que dizia, sem meias palavras, que não gostava do timbre confessional de Fernando Pessoa! ; que apoiava de modo franco as artes de vanguarda!

Vigor de criação que intentou um paraíso aqui, entre e para os homens. Talvez, a morte de João Cabral represente a morte simbólica não só de um período mas a "morte" da poesia como ato político de resistência. Preservar o seu legado é impedir, com força, que isto aconteça.

Régis Bonvicino, 9 de outubro de 1999

 

THE DEATH OF JOÃO CABRAL

I'm disturbed by João Cabral's death, even though he was old and in such bad health that anybody could see it coming.

He was blind and had written nothing for at least five years. What was left him? For him, writing was seeing, was something like this, from his poem "The Light of Joaquim Cardozo": "Writing about Joaquim Cardozo / one must know / that Velásquez light / which gave him life / and from which he writes . . ."

Visionary, in an intensely new meaning of the word. The act of writing as the act of conceiving, of distinguishing, of making present. To write poems as an act of the imagination: "She imagined a poem that would make her see / (when in the dance) with fire . . ."

Best, most, great; words like those tell us nothing about the scope, depth and attainment of João Cabral's work. To be a poet, and to be a Brazilian, he was obliged to live abroad. obliged him to live abroad. He was anti-lyrical. He wrote against the tide of mediocrity in our language. Very unlike Drummond-another "great"-that antivicar!, that "foreigner" who obstructed the diaspora of Brazilian poetry and kept it to a tone even more elevated than that of Octavio Paz, for example, or Derek Walcott, to name only two recent recipients of the Nobel "Prize."

What does one say when faced by the death of a kind of "god" in this critical moment for poetry, when the idea of culture is being overwhelmed by the idea of marketing and the concept of civilization is being diluted by that of vengeance? I have to go back to Murilo Mendes, the major Brazilian poet of the 20th century: "With me and with you, the antifascia . . ." I'm terrified by this death that leaves us even more lacerated.

I'm terrified by the death of this writer who showed us that imagination demands vigor as well as dream, talent, not mere desire; or, in the words of Jorge Guillén, one of Cabral's masters: "No, not dream. Vigor / Of creation completes / Its paradise here: / Penumbra as ever. / And this implacable being / Imposing itself on me / Again-vagueness / Resolving in form . . ."

I'm very frightened by the death of João Cabral who said without mincing words, that he didn't like the confessional tone of Fernando Pessoa, and who outspokenly supported the avant-garde in art!

A vigorous creation who struggled for a paradise of the here and now, among and for all humanity. Perhaps the death of João Cabral represents not only the end of an era, but also the "death" of poetry as an act of political resistance. We must not let this happen. We must preserve what he left us.

Régis Bonvicino October 9th.
Translated into English by Cris Daniels

 

CONVERSA COM JOÃO CABRAL

(por telefone, em 22 de abril de 1996,
a propósito da visita de Robert Creeley ao Brasil)

A voz de João Cabral não estava forte como a ouvi no início dos anos 80, numa visita que, com Sebastião Uchoa Leite, fiz a ele, em seu apartamento na Praia do Flamengo. Estava sem a energia do passado. O vigor reaparecia apenas na palavra compreende — usada, como sempre, como um refrão, uma palavra de apoio, em suas falas curtas — agora. Perguntei a ele se se lembrava de mim. Por educação, creio, respondeu afirmativamente. Falei que o considerava o melhor poeta brasileiro vivo e um dos melhores do mundo! (Uma das situações raras em que frases desse tipo não soam como bajulação). Ele retrucou: " Isso é você quem está dizendo".

Disse-lhe que havia lido, em novembro de 1995, poemas em Marselha e que lá havia conhecido Madame Mirelle, que me contou ter sido admitida no Consulado brasileiro, em meados dos anos 50, por ele — João Cabral, então Cônsul-Geral. Ele se lembrou de Mirelle e afirmou que achava a cidade bastante interessante — que gostava muito — de sua geografia. Perguntei se alguns de seus poemas se referiam, de algum modo, a Marselha e ele disse que não, que nunca escreveu "sobre" ela. Falei-lhe das montanhas e dos arbustos, que nasciam das pedras, pensos fios de arame, mediterrâneos. Perguntei se estava escrevendo, agora, lá no Rio, coisas novas. E ouvi um não. Contou-me que conhecia o trabalho de Creeley e que teria prazer em recebê-lo, em seu apartamento. Indaguei dele a respeito de suas traduções de WCW — ao que me respondeu prontamente: "Sim, traduzi". Com o vigor da voz reaparecendo de novo:

 

Voz de cabeça
sem ordem e cor
arame-

horizonte
se pronuncia
desacordada

não mais
onívora
gralha da fala

 

Régis Bonvicino

 

SPEAKING WITH JOÃO CABRAL

(by telephone, on April 22, 1996,
apropos Robert Creeley's visit to Brazil)

João Cabral's voice wasn't as strong as it was in the early 80's when Sebastião Uchoa Leite and I visited him at his apartment on Praia do Flamengo. It was missing its former energy. The strength now reappeared only when he said the word "entende" ["understand?"], the customary refrain, or support-word, of his terse speech. I asked him if he remembered me. He told me he did, but I think he was being polite. I told him I considered him the best living Brazilian poet, and one of the best in the world! (In some situations, sentences like that don't sound like flattery.) He said: "That's what you say."

I told him I was in Marseilles reading my poems in November 1995 and that I had met Madame Mirelle, who told me she had worked at the Brazilian consulate in the mid-50's and had been hired by Cabral, who was the Consul General. He remembered Mirelle and told me he found the city to be quite interesting-that he liked it very much-because of its geography. I asked him if any of his poems in some way referred to Marseilles and he said no, he had never written "about" the city. I talked about the mountains and the wiry shrubs angling out of Mediterranean stones. I asked if he was writing new things there, in Rio. And I heard him say no. He told me he knew Creeley's work and would be pleased if Creeley came to visit him in his apartment. I told him how much I respected his translations of William Carlos Williams, and he said, immediately, "Yes, I translated him." And his voice had all its old vigor:

Régis Bonvicino
Translated into English by Cris Daniels

 

EL CANTE HONDO

EL CANTE HONDO
(De MUSEU DE TUDO, 1985)

This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper
Eliot

O cante hondo às mais das vezes
desconhece essa distinção:
o seu lamento mais gemido
acaba em explosão.

Tão retesada é sua tensão,
tão carne viva seu estoque,
que ao desembainhar-se em canto
rompe a bainha e explode.

João Cabral de Melo Neto

 

EL CANTE HONDO
(From MUSEU DE TUDO, 1985)

This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper
Eliot

More often than not cante hondo
ignores this distinction:
its most plaintive lament
ends in an explosion.

So taut is its tension,
so living flesh its repertoire
that,unsheathing into song,
it shatters the sheath and explodes.

Tr. from the Portuguese
by Guy Bennett and Régis Bonvicino

 

ABOUT JOÃO CABRAL

João Cabral de Melo Neto died last week. He was 79 years old. One of the most important Brazilian poets of the postwar generations, Cabral continues to exert a strong influence on many younger Brazilian poets. He was remembered at a celebration for Haroldo de Campos’s seventieth birthday at Yale this past weekend and certainly the two poets suggests the enormous range of Brazilian poetry in the past fifty years. As Régis Bonvincino writes to me about Cabral: “Along with Carlos Drummond de Andrade and Murilo Mendes, Cabral is considered the best poet of Brazilian Poetry born in the 20's.”

Cabral’s Selected Poetry: 1937-1990 is published by Wesleyan, and includes the well-known translation of his work by Elizabeth Bishop. This afternoon Horacio Costa and I translated two poems of Cabral that I wanted to post to the list, with Régis adding some changes by email to the first.

Charles Bernstein

 

PSYCHOLOGY OF COMPOSITION (VII)

It’s mineral the paper
on which to write
verse; verse
that is possible not to make.

Mineral are
flowers and plants,
fruits, animals
when in a state of words.

Mineral
the horizon line,
our names, those things
made of words.

Mineral, at last,
any book:
because the written
word is mineral, the cold nature

of the written word.

Tr. from the Portuguese
by Charles Bernstein, Horácio Costa and Régis Bonvicino,
based on the published translations of Djelal Kadir.

 

THE LAST POEM

I don’t know who sends me poetry
nor whether Who would call it that.

But who who may be, who
that Who (myself, my sweat?),

be it woman, landscape, or the no
that needs fill the void,

to make, for example, the crutch
that I made walk the left soul,

to Whom should be given the inglorious burden
I ask: my last poem

sent, as a poem perverse,
antilyric, made into antiverse.

Tr. from the Portuguese
by Charles Bernstein and Horácio Costa,
based on the published translations of Djelal Kadir.

. . . . . . . . . .

 

HOMENAGEM A JULIO PLAZA

julioplaza

Julio e sua gravura Superman + Calder, foto Régis Bonvicino, 1976

 

HOMENAGEM A BRAGA

regisedgarbraga

RB e Edgard Braga, foto de Paulo B.Whitaker, 1984

 

A DESBRAGADA SEMINAL
Edgard Braga: liberdade criativa e desapego à tradição do verbo

FERNANDO COELHO, Repórter – GAZETA DE ALAGOAS

Entre todos os segmentos da literatura, nenhum costuma provocar tantos embates quanto a poesia. Ainda assim, a despeito das divergências, o gênero se sobressai com o fato de boa parte dos seres humanos já terem tentado, ao menos uma vez na vida, rabiscar palavras no intuito de expressar sentimentos. Afinal, quem nunca transcreveu para um pedaço de papel uma sensação intensa, um lamento inquietante ou um desejo latente?

Muitos levam a coisa mais a sério e têm no trato com a palavra uma necessidade vital, cotidiana. Um permanente canal de relação com o mundo que, por vezes, se torna uma constante busca de caminhos para expressar a si mesmo e o seu redor. Foi assim, utilizando os recursos da poesia para esculpir e (des)montar os signos da linguagem, que o alagoano Edgard Braga encontrou o principal meio para expressar suas idéias.

Passados 20 anos de sua morte, o médico-poeta nascido em Maceió, em 10 de outubro de 1897, viveu o mesmo paradoxo de sua arte: seu nome continua entre os escombros do anonimato, mas sua figura é aclamada como uma das mais representativas para a poesia visual de todos os tempos.

Mesmo tardia, que a justiça seja feita. A relação inquietude, linguagem e arte regrou a vida do respeitado obstetra que viveu em Maceió até 1915 para então, aos 18 anos, partir para São Paulo e, no decorrer de décadas, iniciar uma profícua trajetória por diversos segmentos da poesia.

Do início parnasiano-simbolista de A Senha (em1935) até o culminar em “tatoemas” (neologismo criado para definir sua produção pós-concreta) e poemas objetos, passando ainda pela fase modernista, Edgard Braga impressionou parte do universo literário brasileiro ao se interessar, já aos 60 anos, pela mais radical forma do fazer poético até então: a poesia concreta.

Encabeçada no Brasil pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari, o segmento que, ainda nos anos 1950, iria reinventar a poesia, foi abraçado pelo médico a ponto de provocar uma ruptura em seu estilo literário, revelando um espírito rejuvenescido e insistente na tentativa de encontrar uma expressão genuinamente autoral. Edgard Braga se (re)descobriu com a poesia concreta e passou a produzir uma série de obras que chamou a atenção - inclusive - dos criadores do movimento. Seu nome já foi citado em diversos ensaios, publicações e estudos de autores nacionais e estrangeiros sobre poesia visual e até em exposições sobre as origens do design no Brasil.

A estreita relação do médico com Oswald de Andrade e com a turma realizadora da Semana de Arte Moderna de 1922 já demonstrava a afinidade com tendências artísticas que visavam transgredir os padrões vigentes. Mesmo em seus trabalhos iniciais, a influência simbolista dividia espaço com estruturas não-convencionais para a poesia.

Apesar de monitorada pelo triunvirato Campos, Campos e Pignatari, a liberdade criativa e o total desapego à tradição do verbo, intrínsecos à poesia concreta, escancararam as portas da imaginação na dinâmica relação de Braga com o texto. Originalidade e experimentalismo passaram a ser a tônica de sua produção. O ponto de partida deste recomeço é dado com a publicação de Extralunário, em 1960. É a partir daí que o verbo começa “a perder a gravidade” em sua obra, como disse Décio Pignatari em texto publicado na antologia Desbragada (1985), organizada pelo poeta e escritor Régis Bonvicino.

Um dos protagonistas do “crime poético” que foi o concretismo no Brasil - é assim que ele se refere ao movimento em Errâncias (2000) -, Pignatari falou, em entrevista à Gazeta, sobre a trajetória de Edgard Braga. Para ele, o poeta se encantou com a novidade da poesia concreta por ela trazer consigo uma visão crítica da literatura. “Ele tinha uma vasta visão do universo cultural brasileiro e ficou surpreso em ver uma geração [os concretistas] tão bem informada”, diz o poeta que, assim como Oswald de Andrade, teve o médico como parteiro de sua prole.

O escritor e poeta mineiro Carlos Ávila, também presente em Desbragada, confirma a importância da obra “braguiana” e lamenta o esquecimento de seu legado. “Ele tem uma trajetória bastante curiosa. Começou a escrever ainda dentro de moldes tradicionais usando o verso e a métrica. Ao se aproximar das experiências de vanguarda, que estavam ocorrendo com a poesia concreta na década de 1960 em São Paulo, Braga atualizou sua poética e chegou a criar vários poemas utilizando o espaço em branco, a visualidade e os recursos gráficos. Isso causou um impacto e um salto de qualidade e de ousadia que espantou muita gente”, diz.

“Ele está injustamente esquecido”, lamenta Régis Bonvicino. “Acho que o encontro dele com a primeira poesia concreta foi fundamental. Este encontro o liberou das amarras gramaticais anteriores”, emenda o autor de Ossos de Borboleta (1996).

“TORTOGRAFIA”
Nos capítulos pontuais de sua produção independente, o obstetra das letras avança pela desconstrução lírica (como em Soma, de 1963) e, sem respeitar a formatação tradicional, rompe com todos os parâmetros preestabelecidos mergulhando fundo na poesia visual, explicitada em Algo (1971), já sob a égide de um novo gênero, batizado por seu criador de “tatoemas”. A fratura do discurso e o estreitar de laços com as artes plásticas e gráficas são os principais sintomas desta fase derradeira.

Embora a aproximação com a arte visual seja um caminho natural para os seguidores da poesia concreta, o diferencial de Edgard Braga no processo migratório foi seu traço pessoal. “Ele fez sua própria revolução poética com gestos personalíssimos e de qualidade. A partir de brincadeiras com as letras utilizando carimbo, mata-borrão e as próprias mãos, criou uma espécie de ‘tortografia’, onde a palavra não era mais o mote principal”, diz Aloísio Nunes, professor de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas, que levou a obra de Edgard Braga para a Academia como tema de sua dissertação de mestrado. Defendida na PUC de São Paulo, em 1990, a pesquisa teve orientação da professora Lúcia Santaella, considerada “papa” da semiótica (a ciência que estuda os signos da linguagem) no Brasil.

Nunes acredita que mesmo em A Senha - poema épico sobre a Revolução Constitucionalista de São Paulo de 1932 -, o poeta já anuncia o tratamento diferenciado do texto. “Ele tinha uma concepção visual sobre a distribuição de versos sobre o branco papel que não era muito comum na época”, comenta.

A descoberta de uma nova estética fez Braga enxergar poesia até em objetos, num total desprendimento da palavra, como em Poema-garrafa (1965) e Punk poem (1982). “Pelo fato de ser de uma geração anterior aos próprios Campos e Pignatari, ele mostrou um vigor inusitado e uma imensa capacidade de renovação”, defende o poeta Carlos Ávila, autor de Aqui & Agora (1981).

Régis Bonvicino destaca o alagoano como “o primeiro a desenhar palavras com um sentido muito preciso” e aponta o caráter inclassificável de obras como Tatuagens (1976) e Murogramas (1982). “De fato, sua mais importante contribuição se deu no final da vida, com esses poemas mais livres, mais inventados, sem gênero”, observa.

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OBRA DO CALÍGRAFO DA POESIA REPOUSA NOS ALFARRÁBIOS
O precursor do uso da caligrafia em poesia no Brasil não perdeu os vínculos com sua terra natal e por anos Edgard Braga foi membro-correspondente da Academia Alagoana de Letras, embora pouco se saiba sobre sua atuação. A pouca notoriedade do poeta foi reforçada por uma produção esparsa e fragmentada em diversos textos publicados em periódicos e jornais e nas revistas experimentais Invenção, Código e Corpo Estranho.

Como seus livros foram independentes e de tiragem limitada, encontrá-los atualmente é submeter-se a um verdadeiro trabalho de Hércules em garimpagens sem fim pelos sebos Brasil afora.

Um dos poucos felizardos a ter sua obra completa é o professor Aloísio Nunes. Os livros foram obtidos em alfarrábios. Quando se interessou pelo ousado sotaque das experiências “braguianas”, o pesquisador não perdeu tempo e foi atrás de subsídios para o estudo. “Eu estava fazendo comunicação em Pernambuco. Li o livro Contra-comunicação, de Décio Pignatari, e em uma visita sua à universidade ele citou Edgard Braga. Comecei a pesquisar sobre o nosso poeta e quis fazer mestrado na PUC com algo relacionado a ele e sua obra”, explica.

Numa abordagem semiótica feita a partir de uma tipologia da linguagem verbal criada pela semioticista Lúcia Santaella, Aloísio sugere uma classificação para as vertentes poéticas adotadas por Braga em suas fases mais radicais. “O que é um texto verbal, ou um texto verbal com elementos de visualidade, ou ainda o que é apenas visual? E o que isso traz de qualidade de sentimentos, de ação e reação e de concepção geral das coisas?”, tenta elucidar o pesquisador.

Aloísio Nunes é detentor de alguns dos livros sobre medicina escritos pelo médico e ainda de duas raridades: o texto inédito A Correnteza e o livro Voz de Vós, ambos de 1961. Sua intenção é sensibilizar a Editora da Ufal (Edufal) para lançar toda a obra de Edgard Braga. FC

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SERINGAS, CARIMBOS E LETRA-SET
Além de uma bissexta manufatura poética entre 1929 e 1951, Braga exercitou a escrita com ensaios e artigos sobre medicina com enfoques ora acadêmicos ora socioculturais. A obstetrícia teve tanto peso em sua vida quanto a poesia.

Após o curso de Ciências Médicas feito entre 1916 e 1922, na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, o então acadêmico foi morar na Alemanha para fazer especialização. “O Braga era maravilhoso, uma figura humana admirável entre a ciência e a arte. Já tinha posto mais de dez mil crianças no mundo e nunca foi um pedante”, lembra Décio Pignatari, que teve longa amizade com o médico-poeta. “Eu chegava a ir para seu consultório apenas para conversarmos sobre poesia”, diz.

Por outro lado, a produção caseira do alagoano era constante. Pignatari revela que, junto com os irmãos Campos, tinha o prazeroso trabalho de fazer a edição de suas obras. “Ele desenhava com seringa e mata-borrão chegando a fazer 20, 30 desenhos em uma noite. Como produzia, de certa forma, de maneira desordenada, nós fazíamos a seleção crítica do material e apontávamos os problemas e os acertos”.

Pignatari diz não lembrar as circunstâncias nas quais conheceu o poeta, mas confirma que o autor fazia parte de um grupo que procurou os vanguardistas da poesia devido ao interesse pelas manifestações concretas. “Braga estava sempre interessado e recuperou a caligrafia e o desenho para a poesia”, comenta o ícone concretista, que assina diversos projetos gráficos do poeta e tem no livro Soma (1963) o seu preferido. “Foi o livro mais bonito que eu fiz”, diz. A associação de Edgard Braga com nomes famosos da arte brasileira se estendeu a Di Cavalcanti, que ilustrou a obra Lunário do Café (1954).

MESTRE DA FANOPÉIA
Com traços pungentes e por vezes remetidos a sentimentos lúdicos, o “patriarca semiótico” é também considerado um mestre da fanopéia - classificação dada aos poemas que se manifestam através da imagem. O realce dos espaços em branco força o intérprete de suas obras a criar significados mentalmente.

“Ele rompe com a poesia verbal e passa a escrever a poesia estritamente visual, o que ele chamou de ‘tatoemas’ e tatuagens. Tem letra-set, carimbo, nanquim, pincel atômico, colagem, fotografia e outros recursos utilizados numa espécie de rascunho semiótico. Sempre de maneira pessoal, num estilo único. Mesmo no âmbito internacional, o trabalho dele tem uma característica muito própria”, teoriza Carlos Ávila.

IMPASSES DA LINGUAGEM
Para Ávila, o diferencial de Braga dentro do movimento é o apontar de saídas para os impasses de linguagem que estavam colocados até aquela altura. “De certa maneira, ele antecipa os movimentos como o grafite urbano. Parece um grafite de câmara, feito em seu ambiente de trabalho, mas que já dialoga com esta forma do grafite e tem elementos que anunciam os procedimentos que só se tornariam possíveis na vídeo-arte e nas novas mídias. Sua visualidade no papel já indicava as explorações para o vídeo”, observa o escritor, que se correspondeu com o poeta.
“Tenho cartas dele. Elas se confundem com os poemas. Edgard Braga era um espírito aberto, livre. Uma pessoa que estava procurando um rumo, um norte para a sua obra. Estes últimos trabalhos rompem a noção de gênero. Não se pode classificá-los somente como poesia ou artes plásticas. A própria obra Algo dá a entender isso no título. É como alguma coisa que não se define”, analisa o poeta.

CAMINHO IRREGULAR
O escritor Régis Bonvicino vê percursos díspares no legado do médico-poeta. Para ele, a obra de Braga é irregular, mas com um ponto alto: “A invenção dos poemas-grafite, onde promoveu a fusão da escrita com o seu bisturi de parteiro”. “Penso que ele criou um gênero novo ou uma poesia e uma poética sem gêneros, que ainda não foi devidamente estudada e reconhecida”, diz.
Edgard Allan Braga casou pela primeira vez com Anna Maria Barreto. Teve um filho batizado de Edgard Braga Filho. Morreu em 9 de setembro de 1985, aos 87 anos. Médico e poeta, foi um dos mais ilustres filhos alagoanos que esta terra pouco conheceu e reverenciou e, como bem disse o poeta Paulo Leminski, era “o octogenário que a gente quer ser se chegar até lá”. |FC

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BIBLIOGRAFIA INDICADA
1933 - A Senha (poema épico)
1945 - Lâmpada sobre o Alqueire (poesia)
1951 - Odes (poesia)
1952 - Albergue do Vento (poesia)
1953 - Inútil Acordar (poesia)
1954 - Lunário do Café (poesia)
1959 - Subúrbio Branco (poesia)
1960 - Extralunário (poesia)
1961 - A Corrente (poesia)
1963 - Soma (poesia)
1971 - Algo (tatoemas)
1976 - Tatuagens (tatoemas)
1982 - Murograma (poster)
1983 - Infância (poster de Kuko)
1984 - Desbragada (coletânea)

 

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Copyright © Régis Bonvicino

 

LÚCIO COSTA EM ABRIL DE 2001

Régis Bonvicino

Depõe contra a "cultura" brasileira o silêncio que houve em torno do livro "Com a palavra, Lucio Costa", organizado por sua filha Maria Elisa Costa, lançado no final de 2000. Lucio Costa morreu há quase três anos, em 13 de junho de 1998. Não deve ser considerado, creio, somente um "grande arquiteto e urbanista", que renovou técnicas e estéticas de construção no Brasil, a partir dos anos 30 e, sobretudo, com a "invenção" do edifício do Ministério da Educação e Saúde, em 1936, na cidade do Rio de Janeiro, para a qual trouxe ao Brasil o arquiteto francês Le Corbusier. Não deve, também, ser estimado "apenas" como o mestre de Oscar Niemeyer e, com ele, o idealizador de Brasília, nos anos 50 - o que já não seria pouco.

Lucio é, na realidade, um dos raros pensadores brasileiros de todo o século 20. Pertence, historicamente, ao que se pode designar como segunda geração modernista. Foi-lhe determinante, para as rupturas e ações posteriores, a visão de uma fotografia da "casa modernista" de São Paulo, de Gregori Warchavchik, em 1928, a quem convidou para trabalhar no Rio e com quem projetou a casa Schwartz, cujo terraço foi o primeiro "jardim" de Roberto Burle Marx. A obra de Lucio representa as contradições estruturais da nova cultura brasileira: a implantação do modernismo, em arquitetura, no Rio, e toda a renovação que propôs em seguida, não teria provavelmente encontrado existência sem o apoio de Getúlio Vargas. Brasília significou, neste sentido, ruptura com e ao mesmo tempo prolongamento das atividades do anos 30, estas sob o patrocínio do então ministro Gustavo Capanema e aquela já sob a égide de Juscelino e da democracia. Não se pode imaginar Brasília sem o trabalho de Lucio e Rodrigo M.F. de Andrade no SPHAN - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - um produto também dos anos 30, que fez com que a inteligência brasileira se voltasse para o reconhecimento de, entre inúmeros exemplos, a preservação das cidades históricas de Minas - redescobertas por Mário e Oswald de Andrade, em 1922. Brasília dialongando com Diamantina e Ouro Preto, além dos "imensos gramados ingleses", da infância de Lucio.

Enfim, Lucio Costa é figura central, com tratamento insuficiente para sua dimensão. Prova disso é que passou quase despercebido este vivo e afiado "Com a palavra", que reproduz trechos do extenso e quase inacessível "Registro de uma vivência" (1994), ao lado de peças esparsas, recolhidas em jornais e revistas, e cartas e documentos particulares. O livro gira em torno de como ser brasileiro, original, inovador e justo, no século 20. Para Lucio, sem a preservação das características diferenciadoras brasileiras, advindas do passado luso, afro e aborígene, fundido com a migração européia mediterrânea e nórdica, a arquitetura não fazia sentido. "Recusar subserviência, inclusive cultural, mas absover a inovação alheia", era seu lema.

Façamos uma leitura de seus, por assim dizer, aforismos e de sua vida em confronto com a situação atual da cidade de São Paulo. O caderno Cidades, de O Estado de S. Paulo, de 3 de abril último, estampa, em sua capa, a manchete: "Esboços mostram que capital só existe no papel", denunciando que "projetos engavetados há anos teriam dado outra feição a São Paulo". Lucio ergueu, durante a guerra, com materiais precários, o edifício do Ministério da Educação e Saúde, riscado por ele e por Le Corbisier, em 1936. Construiu Brasília, onde havia - segundo seus termos- "apenas o cerrado, o céu imenso e uma idéia saída da minha cabeça". Não serviria, para toda a equipe da prefeita Marta Suplicy, como programa, a observação: "Cidade é a expressão palpável da humana necessidade de contacto, comunicação, organização e troca - numa determinada circunstância físico-social e num contexto histórico" ?. Seria também útil, para os dirigentes do município, que lessem o trecho em que Costa relata como resolveu o problema do "congestionamento anormal do tráfego", no Rio, nos anos 40: "... Chocado com essa anomalia elaborei um plano objetivando separar os dois fluxos de tráfego procedentes das zonas norte e sul, que se cruzavam no centro da cidade ( ... ) e, numa bela manhã, com os guardas já devidamente instruidos, mudaram-se as mãos e, por encanto, como se tivessem desentupido um ralo, o tráfego dócil fluiu, cicilizadamente". Não seria "civilizado" e oportuno criar uma Fundação Lucio Costa, por exemplo, numa das casas modernistas de Warchavchik, no Pacaembu - casas que provavelmente devem estar sendo usadas para fins inadequados, apesar de tombadas ?.

Costa, como se vê, era pessoa da reflexão em ação. Uma espécie de artista e intelectual engajado, um ser da segunda revolução industrial que acreditava na tecnologia: "... o desenvolvimento científico e tecnológico, além de libertar o homem da fome e da indigência, cria condições capazes de livrá-lo igualmente da vulgaridade e da sofisticação ( ... ). Por onde se comprova ser a industrialização intensiva a base mesma de um novo humanismo...". Há, também, momentos lancinantes neste volume, onde - a partir de um ponto de vista de técnico - captura tensões - atualíssimas - de todo o desastre brasileiro (que se reflete principalmente numa cidade como São Paulo): "...A máquina brasileira de morar, ao tempo da Colônia e do Império, dependia dessa mistura de coisa, bicho e gente que era o escravo. Se os casarões remanescentes do tempo antigo parecem inabitáveis devido ao desconforto é porque o negro está ausente. Era ele que fazia a casa funcionar ...".É este "negro ausente", que hoje se traduz num uso inadequado da tecnologia, que transformou , entre tantas consequências, a capital paulista numa "metrópole de papel".

A leitura de "Com a palavra" revela um Lucio Costa precoupado com a inovação na poesia (o que não é comum sequer entre poetas), ao defender, por exemplo, Tom Jobim de acusação de plágio, em 1980: "... O plágio é a imitação, a contrafação, hábil ou canhestra, de uma determinada obra, e não essa fecunda e válida absorção, formal ou sonora, que o artista normalmente sofre...". Ou quando presta homenagem aos paulistas de 1922: "... Em 22, Mário, Tarsila, Oswald & Cia, enquanto atualizavam internacionalmente a nossa defasada cultura, também percorriam as cidades antigas de Minas e do norte em busca "antropofágica" de nossas raízes...". Lucio Costa merece, no Brasil, o tratamento que Frank Lloyd Wrigth tem nos EUA - tratamento de um fundador de uma cultura, que precisa preservá-lo, para que possa - numa perspectiva humanista - florescer.

... há momentos na ascenção econômica dos povos subdesenvolvidos - como este que o Brasil atravessa - quando é preciso aceitar novamente o desafio das circunstâncias, conferindo sentido atual ao brado histórico de 1822: "Industrialização ou morte!". Industrializar-se ainda que o preço seja a inflação, ainda que se imponha emitir, a fim de vencer a encosta e alcançar a lamejada estabilidade noutro plano, com maior produção, mais riqueza, mais poder de compra. A alternativa seria a pobreza sem esperança e a estagnação.... (1959)

Com a palavra, Lucio Costa, Editora Aeroplano, 169 páginas, org. de maria Elisa Costa.

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