A LUZ POÉTICA DE UM SENHOR DE TANTOS ECLIPSES
Livro de poemas de Régis Bonvicino, em edição bilíngüe, Sky-eclipse inclui o nome do autor num catálogo voltado à literatura inventiva de todo o mundo.
Há cerca de quatro anos, em 1996, Régis Bonvicino lançava Ossos de Borboleta e, obsessivamente, já reiniciava o incessante trabalho que é, para a sua poesia, desde a década de setenta, "avançar" - aqui entendido como a consciência de que à poesia compete, entre outras coisas, refletir o mundo em que é produzida, um mundo cuja instabilidade agride quem o habita e pensa. Assim, ao invés da passividade de apenas "sofrer com as mudanças", Bonvicino opta, para se defender, por "sofrer as mudanças", e é disso que sua poesia se alimenta, sempre pulsando, viva, num atentado contra as coisas desse mundo.
Desta vez, resultou em um livro chamado Céu-eclipse, lançado ao mesmo tempo em que seu autor chegava à língua inglesa com Sky-eclipse and other poems, por alguns dos grandes nomes da poesia local.
Aspecto importantíssimo deste autor são as trocas internas, entre poema e poema, livro e livro, que consegue imprimir em sua obra, tanto que, para entender alguns porquês de Céu-eclipse, considero necessário ter noção, ao menos, do conjunto que deu origem aos poemas reunidos em Sky-eclipse, ou seja, dos livros mais recentes de Bonvicino, todos da década de 90 - Outros Poemas, Ossos de Borboleta e do próprio Céu-eclipse, é claro. Se bem que melhor seria, para poder ouvir a "conversa" inteira, conhecer todo o trajeto, desde Bicho Papel (75), desta que é uma das mais "incômodas", pelo que tem de dissonante, entre aquelas vozes que surgiram na segunda metade do século brasileiro.
Consciente deste "avançar", Céu-eclipse arremata questões trabalhadas em Ossos de Borboleta, para formular outras, a exemplo do que este fez em relação a Outros Poemas, e este em relação a 33 Poemas, que também o fez em relação a Más Companhias, e assim por diante até os primeiros poemas, em que já seria possível vislumbrar algumas possibilidades para a poesia desenvolvida hoje por seu autor, talvez mais explicitamente na interpenetração de sua palavra pela cidade, e vice-versa, como se tentassem forças em sentido contrário, sem que, para isso, deixasse de existir numa o avanço da outra.
Em Céu-eclipse, este traço de "narratividade", intensiva e extensiva, entre os poemas de toda sua obra, acentua-se ainda mais, motivo pelo qual seu autor o subintitulou "Poema-Idéia", numa referência direta ao subtítulo do Catatau, "romance-idéia" de Paulo Leminski, em que tal composto, acrescido à falta de divisão em parágrafos, revela o aspecto de insistente subdivisão e trabalho da única idéia de que é feito o livro. Bonvicino chamou a isso de "tema e subtemas", o que elucida não só a de Céu-eclipse, mas quase toda a preocupação de sua obra, iluminando uma leitura em que, mais do que um poema se resolver em outro, cada poema contém todos os outros, em imagem invertida e sempre atualizada pelos novos "subtemas" que a obsessiva escritura consegue fazer transbordar.
Há, em Céu-eclipse, o redimensionamento de alguns horizontes de Ossos ..., como por exemplo quanto ao poema "Unhas": "Unhas de formiga/ estátuas de girafas/ girafas tatuadas/ animam-se a si/ mesmas savanas/ vãs o limbo/ de uma haste alargada/ árvores folhas concentram/ verdades dentes/ de formiga/buraco/ para capturar elefantes/ vôo de tartaruga/ rêmoras/ navegam estrelas/ casca de/ ostra sobre a areia/ flor/ que atravessa e/ rompe a lista da abelha." Já em "Nexos", àquelas figurações somam-se outras: "Da seiva, só o olhar do ramo. Do néctar, só a cor do líquido. Da abelha, ferrões mortos. Elo perdido de lipidóptero. Licenídio incendiado nas escavações. Agora a seu bel prazer. Oco trôpego de gotas de orvalho.
Taquaras-secas tomaram os seus galhos. Libélulas cegas. Formiga amarga.
Girafa - mascando espinhos de acácias."
Lê-se claramente o poema do livro de 1996 se movimentando através do de Céu-eclipse, e, no desenvolvimento desta leitura, em sentido contrário, chega-se aos primeiros "jardins" visualizados por Bonvicino em sua obra, sempre cercados de concreto, como investidas contra a cidade, lacunas da urbanização, detalhes que atentam contra o que os contém - "botânica nonsense" que de Más Companhias (1987) até então se faz presente.
Com Sky-eclipse, que recorta dos três últimos livros de Bonvicino uma obra nova, bilíngüe, este "avançar" ganha o que hoje lhe parece inseparável: a dimensão do estrangeiro, o diálogo que nem mesmo os limites da língua censuram, som tecido a partir de entrelaces, mais do que poéticos, culturais.
Uma poesia em que se reconhece a leitura de certos poetas norte-americanos passa a ser uma poesia capaz de alcançar que os nomes que a influenciaram, a traduzam, a levem para perto: explicitação de uma vivência até então guardada nas entrelinhas de relações inusitadas entre os sentidos do poema, espécie de metalinguagem que passa a ser a língua do poeta, e que sugere uma nova linguagem, com a ampliação do repertório brasileiro para espaços que ainda não ousara compreender.
Esta linguagem, já bastante desenvolvida em seus poemas, é a de uma poesia que não recebe formas, pois aí, mais do que acolher o que se diz, a elas - formas - compete também dizer. É esta nova poesia, esta proposta nascida do experimentar outros caminhos, este explorar além das fronteiras da linguagem, que retira de seus poemas o que, por exemplo, Paulo Leminski sempre manteve nos seus: uma primeira camada de leitura, um primeiro entendimento para o qual basta o simples contato.
Também em Bonvicino não encontraremos o uso da forma como ornamento esvaziado de sentido - mas de uma outra maneira. Em Céu-eclipse, por exemplo, o incômodo tique-taque do passar das horas se escreve e inscreve assim, dentro e fora do poema: "Ruído de/ sempre/ presente/ do relógio/ resume// outra/ eritrina meia/ noite// de inverno/ soando,/ cadeira// último/ ajuste/ de braços// íntimo/ acorde/ de flanges// muda/ seqüência/ de quinas." O passo-a-passo com que as palavras são colocadas neste "Ilustração de violenta" é onomatopaico, imprimindo ao poema uma leitura orientada pelo staccato do andar de um ponteiro, e nos mantém atônitos.
Noutro poema de Céu-eclipse, "Composição", o que se lê é a irradiação e a suma das situações de vários outros poemas do livro: "Cano com furos eqüidistantes fixo no teto lançando jatos de água destilada lance de paralelepípedo desalinhado ninguém neles se ajustando grades de ferro pontiagudas em parapeitos de vitrine e janela de alcance mínimo para que ninguém se deite nos espaços vazios ferros retorcidos em portas no teatro além dos jatos câmera canteiro árvore de onde sai a água flores vaso espinho." A projeção desses "dispositivos anti-mendigo", com seus incômodos, transfigurados nos incômodos do mundo em que vive, possibilita ao poeta dizer, em outro poema, que também mora nas ruas, como anota ter dito, de fato, a um mendigo.
Portanto, a sensação de que há "formigas caindo o olho" (no poema "171196") talvez seja a sensação de quem lê Céu-eclipse ou Sky-eclipse - potência que existe somente em uma poesia que força os limites de sua própria linguagem, quando põe a língua, a literatura, a poesia que veio antes de si em situações de questionamento. É "pau-brasil" que vira "brazilwood". É escrever ao som de um triturador de lixo. É imaginar um "sedativo especial para lesmas". É uma nuvem parindo Cobra Norato em Los Angeles.
Enquanto Céu-eclipse o confirma como nome indispensável para a renovação de nossa poesia, com muitos poemas, não apenas com discurso, Sky-eclipse inclui o nome de Régis Bonvicino num catálogo voltado à literatura inventiva de todo o mundo. O poeta vive nas frestas do que o "ânimo mecânico da rua silencia", de onde extrai, por exemplo, a ímpar carga poética de seu livro, contra a literatura, contra o fácil, contra a recepção que não questiona, "anti tudo que é pau ou que é pífio", como disse, de Murilo Mendes, Manuel Bandeira - fazendo destas minhas linhas tão pouco comparado ao que dá a ler e insinua, por trás de um pseudo-eclipse, a luz desse senhor de tantos eclipses, refazendo a si mesmo e aos outros com sua voz de corda de aço.
# SKY-ECLIPSE, de Régis Bonvicino. Greetinger/Sun & Moon Press, 125 págs.,U$ 9,95. Pode ser encomendado pelo e-mail: djmess@sunmoon.com
Tarso M. Melo é poeta, autor de A lapso (Alpharrabio, 1999), e editor da revista Monturo
<<<
Copyright © Régis Bonvicino
|