| O OLHO DA CONSCIÊNCIA
Arnaldo Pedroso d'Horta não foi um ensaista de artes plásticas. Bem o define sua filha Vera d'Horta, organizadora deste excelente “O Olho da Consciência”, que reúne seus artigos, estampados em “O Estado de S. Paulo” e “Jornal da Tarde”, principalmente os escritos nos anos 60, como “cronista de arte”. Todavia, há em seus textos, um sentido crítico, que se revela sobretudo na felicidade de certas escolhas de artistas, que elegia para prestigiar.
Impressiona o fato de Arnaldo — um militante da Esquerda Democrática e, depois, do Partido Socialista Brasileiro — apoiar, abertamente, a Tarsila do Amaral do período “antropofágico” (1928/1929) ou o Flávio de Carvalho vanguardista, sempre tão combatidos. Por isso, pode-se dizer que, entre os sinônimos para a expressão “juízos críticos”, que subintitula este volume, o que melhor alcança os trabalhos de d'Horta é, a meu ver, o de “tino”, em suas várias acepções: discernimento (por exemplo, ao asseverar que “Volpi é um gênio”)e discrição, ao adotar um estilo breve, sem muitos argumentos analíticos.
A leitura deste livro é, igualmente, didática. Mostra como o tempo faz, como ensina o provérbio, tudo de sua cor: boa parte dos personagens resenhados apagou-se. Quem sabe hoje quem é Bernardo Cid (sem querer desmerecê-lo), algumas vezes mencionado ao longo das notas ? Reside, aí, justamente, outra das virtudes do autor: a de correr riscos, a de expor-se, sendo ele também um artista plástico, de bom nível, como demonstram seus próprios trabalhos, que acompanham, nesta edição, os escritos. Por outro lado, Arnaldo tem, como já disse, muitos acertos . Alguns de seus artigos são notavelmente líricos, como aquele que trabalha a morte de Lasar Segall: “A notícia da morte, que os jornais referem, não encontra eco em nossa mente. Falta-lhe uma confirmação íntima: não podemos vê-lo morto, não aprendemos a imaginá-lo assim ...” (setembro de 1957). Outros são avançados, como o que, ao perceber a ausência de mulheres no cenário internacional, anota: “ ... No Brasil não ocorre a mesma coisa. Desde o surgimento do movimento de arte moderna, que nomes como os de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral situam-se entre os artistas mais em evidência ...” (JT,17 de março de 1966). Nesta perspectiva, gostaria de destacar a leitura acurada que fez de uma exposição de Lygia Clark, na galeria Ralph Camargo, em 1971. Exatamente aquela na qual Clark expunha suas “Superfícies moduladas”, suas “Manifestações” e os hoje mundialmente admirados “Bichos”. Leia-se: “ ... Os “Bichos”, em alumínio e metal polido, marcaram um momento e requintada realização escultórica de Lygia Clark. De superfícies muito leves, eles têm uma desenvoltura especial, são seres vivos ...”. Não passaram despercebidos, do mesmo modo, ao olho de d'Horta criadores como Carybé, Hélio Oiticica, Marcelo Grasman, Geraldo de Barros e a Galeria Rex, o grupo Santa Helena — ao qual dedica várias notas, Renina Katz e outros que construiram nossa cultura contemporânea.E, no plano internacional, Pablo Picasso, por exemplo. Tampouco furtou-se ele do debate — tão atual — da pertinência ou não da Bienal de São Paulo, testemunha e entusiasta que foi da primeira, em 1951. Este o “Olho da Consciência”, embora privilegie o campo das visualidades, é, como observa Antonio Candido, nosso maior crítico literário, em seu belo prefácio, uma espécie de roteiro da vida de Arnaldo, e de suas vocações: a de político, a de jurista, a de jornalista e a de artista, sob o signo da solidariedade (tão escassa hoje) e da inquietação. Afirma Candido: “ ... Diríamos que, aqui, é o homem de imprensa que se associa ao artista para registrar o movimento vivo das artes em São Paulo ...”.
No entanto, o maior dos méritos de d'Horta é, para mim, a consciência, expressa em muitos dos artigos, de que “ ... o estabelecimento da autoridade do crítico é um mal, pois pressupõe a eliminação do próprio espírito crítico de quem o aceita como verdade ...”. Neste frase suscinta de 1943, podem ser entrevistos laivos do conceito de pós-modernidade e, sobretudo, o caráter democrático e humanista de seu autor.
Régis Bonvicino
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