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TEXTOS CRÍTICOS  
 

Repto incomum
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Identidades em conflito: 12 poetas catalães
Fábulas poéticas para os olhares de Nunca
Poesia nazi e o G8
Os cus de Judas
Crônicas da Era Bush, de Eliot Weinberger
Sexo e gênero em Parque industrial, de Pagú
Novelas, de Beckett: à esquerda da morte
Inventário de cicatrizes, de Alex Polari de Alverga
Julgamento de Ceausescu lembra obra de Ionesco
Murilo, Cabral e vice-versa
Um lugar para a voz do poeta
Dilatáveis desafiam a mídia
Em São Paulo - Lembranças fragmentárias da visita de Bob Creeley em 1996
León Ferrari versus Gregor Samsa
Sobre a poesia ortônima de Fernando Pessoa
As Obras-primas que poucos leram
Quatro Estrelas: Os Dogmáticos da Parvoíce
Botelho de Oliveira: um coadjuvante de Gregório e Vieira
Cultura e espetáculo em "A moda e o novo homem", de Flávio de Carvalho
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• Sobre Ungaretti / Daquela estrela à outra
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• Poetas franceses da Renascença
• Sobre Eucanaã Ferraz
• Sobre Laís Corrêa de Araújo
• Sobre Jacques Roubaud
• Sobre Décio Pignatari
• Nejar: o aluno de Cervantes
• Boa noite, Paulicea, de Eduardo Muylaert
• Meu livro predileto
• Algumas tensões na figura de Haroldo de Campos
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• O pesadelo do poder de civilização: a utopia brasileira de Mario Faustino
• A dança no topo do vulcão
• A vanguarda que se encarnou na história
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• Murilo Mendes e a poesia brasileira de hoje
• Mário Faustino
• Reverso: Eros, montagem e inovação em Mário Faustino
• Um lugar para José Paulo Paes
• A antropofagia de Tarsila do Amaral, Raul Bopp e Oswald de Andrade: uma estratégia brasileira para cultura e poesia num mundo globalizado
• Flávio de Carvalho: ambição de sentidos nos tristes trópicos
• Nuno Ramos: literalidade, inovação e renovação
• A função da poesia
• A Querela do Brasil
• O Olho da Consciência
• Ensaio sobre Timor Leste
• Tantas máscaras
• The displacement of the "scholastic": new Brazilian poetry of invention
• Borges: o poético e a poesia
• Nota sobre Drummond
• Esplendor & sepultura
• Bakhtin, o corpo, Creeley e Girondo
• O retrato de Fabius Naso
• Estado actual e creativo da lingua portuguesa en Brasil
• Entrega de Macau é metáfora da língua portuguesa ameaçada
• Despoesia, Augusto de Campos, 1994
• Crisantempo
• Joan Brossa: um diálogo com João Cabral
• Poesia completa de Raul Bopp
• Meu tio Roseno, a cavalo, de Wilson Bueno
• Kaiko: um pouco de Leminski
• A idéia totalitária de "canône"
• Valente
• Sobre Júlio Bressane
• O velho e os lobos de Kristeva

 

A IDÉIA TOTALITÁRIA DE "CANÔNE"

 

O primeiro volume da “Anthology of World Poetry of the 20th Century”, que acaba de ser lançado nos EUA (Green Integer, 199 páginas, $15,95), organizado pelo dramaturgo, poeta e ensaista Douglas Messerli, de Los Angeles, surpreende como ato crítico, em si.

O editor rompe, no caso, com visões predominantemente anglocêntricas, como as de Harold Bloom, e, de modo diverso do autor de “O Cânone Ocidental”, procura reunir poetas que se caracterizaram como marcadamente renovadores e ou inovadores em suas respectivas culturas. Produz, em consequência, a “destruição” do conceito totalitário de “cânone”, reaproximando a poesia da idéia descentrada de liberdade, o que não é pouco, num período no qual a arte perdeu seu caráter de resistência, para alinhar-se às “subvenções”, e a um papel complementar – decorativo – do mundo político e econômico.

É significativo e justo que, da língua portuguesa, sempre esquecida nessas coletâneas , ou representada por Fernando Pessoa, o organizador tenha escolhido o “inóbvio”, do ponto de vista internacional, João Cabral de Melo Neto (1920/1999) e que, ao mesmo tempo, não tenha incluido nenhum autor português. A antologia centra-se, basicamente, no que se pode chamar de “segunda geração modernista mundial”, explicando-se, assim, as ausências de Pessoa e Sá-Carneiro e, por isso mesmo, fazendo justiça aos brasileiros, que são, a partir do modernismo de 1922, mais inventivos e relevantes do que os portugueses, em qualquer cenário.

A escolha de Cabral justifica-se, a meu ver, em virtude de sua obra poder ser considerada como espécie de síntese de todas as principais tendências da poesia brasileira do século XX, embora pudessem estar lá também gigantes como Carlos Drummond de Andrade ou Murilo Mendes.

Há apenas um norte-americano: Jackson MacLow, nascido em 1922. Dois falantes de alemão: a poeta Ingeborg Bachman, da Áustria, e Gunther Eich, da Alemanha, ambos do vanguardista “Gruppe 47”. Franceses, quase um: o franco-lituano O.V. de Miloz. Esta antologia, que invoca, para si, mais a raiz latina da palavra, “selecta” (seleta), do que a grega, “análekos” (recolhido), privilegia os escritores de línguas não centrais, relativizando, como já se anotou, perspectivas etnocêntricas.

Messerli propõe uma “leitura” transnacional e metacrítica da poesia(para além das catalogações já feitas dos movimentos). E particularmente dos desdobramentos do modernismo (movimento que eclodiu nos mais diversos países, inclusive, no Oriente), num primeiro passo para a construção de uma história mais complexa da literatura do século.O editor não se limita, por isso, a permanecer no Ocidente, selecionando três japoneses: Hagiwara Sakutarõ, Hayashi Fumiko e Takahashi Matsuo. É curioso ler os japoneses ao lado de suecos como Gunnar Ekelof e Artur Lundkvist. Ou ao lado de italianos como Rocco Scotellaro e Amelia Rosseli, filha da grande líder antifacista Carlo Rosseli. E ou ainda de esponhóis como o recém morto Rafael Alberti (geração de Federico Garcia Lorca) e Ángel Gonzalez, vivo. Está, no livro, o igualmente “inóbvio” catalão J. V. Foix e não, por exemplo, o mediano Joan Brossa (aqui, no Brasil, relacionado a Cabral). Está lá o belga Henri Michaux. Assim, ficam todos os “ismos” (surrealismo, construtivismo, acmeismo), minimizados, num raio centrífugo duplo: o de afastar os autores de suas “escolas” e de dar a eles, em correspondência à suas originalidades, um “lugar” que nunca habitaram e sempre almejaram e mereceram.

É, todavia, “desconcertante” poder ler João Cabral ao lado do russo Ossip Maldelstan (1891/1938). Este escrevendo sobre “Leningrado” (“...para ter certeza que os incríveis presentes de Pushkin / não cairam nas mãos de parasitas...”) e aquele a respeito da “paisagem do Capibaribe”, Recife: “ ... Ele tinha algo, então, / da estagnação de um louco. Algo da estagnação / do hospital, da penitenciária, dos asilos ...” (“Cão sem plumas”, 1949/1950).

Ainda mais “pertubador”, superando interpretações , é ver também reunidos mestre e “discípulo”, o espanhol Jorge Guillén (1893/1984) e o próprio João Cabral, que o teve como modelo durante quase toda a sua obra. Trata-se de, talvez, a mais aguda homenagem que se tenha feito ao autor de “A Educação pela pedra”, no seu intenso diálogo (“o pernambucano de Málaga”) com a Espanha e com o mundo.

 

TRECHOS DA ANTOLOGIA

 

OS NOMES

Aurora. O horizonte
Entreabre pálpebras
E começa a ver. O que? Nomes.
Estão sobre a pátina

Das coisas. A rosa
Se chama todavia
Hoje rosa, e a memória
De seu trânsito, aflita,

Aflita, para viver mais.
Ao largo amor nos alce
Esta pujança agraz
Do instante, tão ágil

Que, ao atingir a meta,
Corre a impor Depois!
Alerta, alerta, alerta
Eu serei, eu serei

E as rosas? Cílios
Cerrados: horizonte
Final.Ao acaso, nada?
No entanto, os nomes.

 

JORGE GUILLÉN
Tradução: Régis Bonvicino

De Escritos com o corpo

Está, hoje que não está
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.

Numa memória para o corpo
externa ao corpo, como bolsa,
Que como bolsa, a certos gestos,
o corpo que a leva abalroa.

Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
E que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.

JOÃO CABRAL (Serial/ 1959/1961)

. . . . .

 

Régis Bonvicino

 

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