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TEXTOS CRÍTICOS  
 

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Identidades em conflito: 12 poetas catalães
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Poesia nazi e o G8
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Em São Paulo - Lembranças fragmentárias da visita de Bob Creeley em 1996
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Sobre a poesia ortônima de Fernando Pessoa
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Cultura e espetáculo em "A moda e o novo homem", de Flávio de Carvalho
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• Reverso: Eros, montagem e inovação em Mário Faustino
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• Kaiko: um pouco de Leminski
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• Sobre Júlio Bressane
• O velho e os lobos de Kristeva

 

VALENTE

 

Dia 20 de novembro, o poeta galego-espanhol Antonio Dominguez Rey, juntamente como o francês Bernard Nöel, estará prestando, na cidade de La Coruña, dentro de seminário que estuda as línguas românicas ou neolatinas, homenagem a José Ángel Valente — considerado um dos três maiores poetas espanhóis da segunda metade do século XX, que morreu em 18 de julho de 2000, em Genebra, na Suíça, em virtude de um câncer. Sua morte não mereceu registros mais atentos aqui no Brasil. A homenagem é compartilhada pelo atual reitor a Universidade de Santiago de Compostela, Dario Villanueva.

Valente ganhou, em 1998, o VII Prêmio de Poesia Iberoamericana Reina Sofia. Para se alcançar sua importância, basta mencionar que José Saramago integrava o corpo de jurados e que João Cabral de Melo Neto recebeu, este mesmo Prêmio, poucos anos antes. Miguel Mora, que o definiu, naquela ocasião, como “o poeta do conhecimento”, observava que:”... ele se destacou sempre do resto de sua geração por seu peculiar sentido de exigência verbal e por um rigor construtivo às vezes lapidar mas sobretudo por sua concepção da missão poética, não como meio de comunicação...”.

Valente nasceu, na cidade de Ourense, Galiza, em 25 de abril de 1929, onde foi agora enterrado, de acordo com seu desejo, no cemitério de San Francisco. Formou-se em filologia românica pela Universidade de Santiago de Compostela, em 1948. Em 1954, ao mesmo tempo em que se lançava como poeta, com “A modo de esperanza”, abandonava a Espanha, para tornar-se “um apátrida”, repetindo , neste sentido, a sina histórica dos próprios galegos. Primeiro na Universidade de Oxford, onde trabalhou como professor do Departamento de Espanhol. Depois, a partir de 1958, como funcionário da ONU e da UNESCO, dividindo sua vida entre Paris e Genebra. Por razões de saúde, fixou-se em 1980, em Almeira, Espanha, incorporando mais uma cidade entre os seus pontos de residência. Todavia, nunca deixou de escrever em galego e de filiar-se abertamente à figura de Rosalía de Castro. Firmou-se, portanto, como aquele que se opôs à lírica enquanto “vômito inane”, como o que procurou emprestar a ela pensamento e fundamento filosófico. É significativo que seja ainda um desconhecido no Brasil – o que revela que, apesar das facilidades de comunicação, o universo poético e cultural brasileiro prossegue preso às mesmas referências e leituras, diluidas à exaustão.

A poesia de Valente caracteriza-se por ser anti-retórica, ética e crítica, contraditoriamente místuica metafísica, com diálogo aberto, como já se anotou, com a filosofia e em especial com Ludwig Witgenstein. Valente pertence ao que se convencionou designar, em seu país, de Geração de 50. Seu trabalho repropõe certas questões do modernsimo espanhol (os chamados “Poetas de 27”) sobretudo de Vicente Aleixandre, Pedro Salinas, Gerardo Diego e outros de viés, digamos, mais objetivista e menos surrealista. Stéphane Mallarmé é referência forte em sua obra, tanto como poeta quanto crítico: não à toa seu principal livro de ensaios intitula-se “As palavras da tribo” (1971). O peruano Cesar Vallejo é outra, com o cubano José Lezama Lima, de suas referências centrais de negação de um certo etnocentrismo hispânico.

Em 1992, foi lançado um livro imprescindível a respeito do percurso de Valente, enquanto poeta e também enquanto ensaista e ficcionista. Dele participam autores mais jovens mas já reconhecidos como Andrés Sanchez Robayna, Jacques Ancet e Rosa Rossi. Sua poesia foi recentemente reunida em dois grandes volumes, pela prestigiosa Alianza Editorial: “Punto Cero” (1953/1976) e “Material memória” (1977/1992).

 

PONTO ZERO
(1967/1970)

Lautréamont e Rimbaud morreram.

Rimbaud

Depois da explosão obscura das Iluminações
Lautréamont para que nunca ninguém
visse seu rosto.

Lautréamont e Rimbaud morreram.

Poderíamos sobrevivê-los ?

Maldito o que sobremorre, à sua vida,
o flácido, o decorado, condecorado,
pele maior do que seu próprio corpo.

Maldito o que pronuncia estas palavras
se escondem um morto ou um nascido.

Lautréamont e Rimbaud morreram.

Os poetas do ramo varrem
com sua língua falaz asseclas
tristes.

Lautréamont e Rimbaud morreram.

Salve, adolescentes da terra.

José Ángel Valente
Tradução: Régis Bonvicino

Régis Bonvicino

 

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