| A DANÇA NO TOPO DO VULCÃO
Cai um avião da American Airlines minutos depois de decolar do aeroporto JFK, em Nova York, com destino à República Dominicana. Morrem cerca de duzentos e sessenta pessoas, quase todas dominicanos, que deixavam os Estados Unidos para passar as festas "navideñas", navidad, o natal, em Santo Domingo.
Pouco importa saber se foi acidente ou atentado, para as repercussões por comparação, por metáfora, que se podem extrair do fato. A primeira: a América Latina perde a condição de vítima secundária para adquirir a condição de vítima também principal do específico mundo de terror, que se instalou a partir de 11 de setembro. No episódio World Trade Center, os latinos-americanos, que morreram dentro do prédio, não eram obviamente os "passageiros" dos aviões, que se atiraram contra as Torres Gêmeas. Digamos, "faleceram", mas não morreram diretamente. Estavam ali, quase todos, na condição de faxineiros, cozinheiros - o quinto escalão dos servidores de Manhattan, com exceção claro de brasileiros "new ages", que faziam "corretagem de valores" !.
No dia 12 de novembro, tudo muda: voavam os dominicanos, para Santo Domingo, para , em férias, tentar reavivar, depois de meses a fio de trabalho, os laços com sua cultura ! Vem-me à tona as discussões de Herbert Marcuse a respeito do tema: "a sociedade tecnológica tende a eliminar os objetivos transcendentes da cultura (transcendentes em relação aos fins socialmente estabelecidos) e elimina ou reduz com isso aqueles fatores e elementos culturais que, em face das formas dadas da civilização, eram antagônicos e alheios". Marcuse está falando do desaparecimento da cultura em si, do esvaziamento de seus vetores antagônicos e alheios ao conceito de civilização. Civilização: trabalho material, dia de trabalho, reino da necessidade, pensamento operacional. Cultura: trabalho intelectual, dia festivo, ócio, reino da liberdade, espírito, pensamento não-operacional.
O ato de deixar Nova Iorque para passar as festas de natal - católico, no caso, em Santo Domingo, demonstra, mesmo que em pequena escala e com contradições evidentes, uma certa carga de antagonismo e alheiamento em relação aos dogmas da "civilização" afirmativa norte-americana: foram mortos quando iam para uma celebração religiosa, sobretudo, mestiça, flexionada por traços fudamentais das religiões africanas. Foram mortos quando "rompiam" com o contrato de adesão ao "pensamento operacional" infinito da América do Norte. O avião, que fazia o vôo 587, cai num bairro habitado por judeus e irlandeses ! Nada poderia ser mais significativo: o aparelho, com latino-americanos, que deixavam o "reino da necessidade" para, ao menos por um lapso, ingressarem na esfera do "ócio" e do "espírito", transforma-se em mais um míssil na "guerra das religiões" - o terceiro mundo contra o próprio terceiro mundo , num ato que quase prescinde de cidadãos de "primeiro escalão" ! .
Uma leitura anagramática da locução "world trade center" revela sentidos que se ocultam no universo da comunição: em "world', está implícito o vocábulo "word", palavra, e, em "trade", o vocábulo "art", arte. As palavras, o verbo, e todas as suas implicações antagôncias, como a arte ou a poesia ou a filosofia foram igualmente esmagadas pelos jatos sequestrados ! Vem-me à cabeça, inevitavelmente, o início do manifesto antropófago, de Oswald de Andrade, escrito em 1928, aqui, neste país de "cultura" auto-referente, sem carga de antagonismo consigo mesma ou sem poder de alheiamento (mas apenas capacidade de isolamento) ou tradução ou diálogo: "Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz".
A queda do avião, que rumava para um lugar obscuro da América Latina (que poderia ser, por exemplo, Brasília) confirma, em seu aspecto "agônico", num plano simbólico, a regra universal firmada pelo manifesto: "só a antropofagia nos une" ou o consumo de carne humana, por seres humanos, no caso, sob a "máscara" das religiões e da extinção, não mais da cultura, mas de qualquer perspectiva ou possibilidade de cultura, mesmo na condição apática de um "domingo"! Trata-se agora, neste momento sombrio, de todos, de tentar retomar os dizeres de Marcuse: " ... uma cultura não-afirmativa será lastreada com a transitoriedade e a necessidade: uma dança no topo do vulcão, uma gargalhada em meio ao luto, um jogo contra a morte ... ".
Régis Bonvicino
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