BOA NOITE, PAULICEA, DE EDUARDO MUYLAERT



Este conjunto de fotos de Eduardo Muylaert, agora exposto na Pinacoteca do Estado, sugere algumas reflexões. O trabalho, livremente tachista, minimalista, contemporâneo, quase nada tem a ver com a Paulicea Desvairada, de Mário de Andrade, autor de obra, sobretudo a poética, obsoleta, pouco representativa da cidade de São Paulo e do mundo atual. Os bondes não passam mais como um fogo de artifício, sapateando nos trilhos, como poetava o morador da Lopes Chaves, que foi, numa operação política nacionalista, candidamente embalsamado e oficializado. Da Paulicea de Mário vejo apenas, neste conjunto, a sílaba CEA, que lembra céu, um céu no feminino, grávido de luz, invenção e urgência, internacional, céu de Bagdá bombardeada ou de uma periferia desaparecida de New Orleans.
As fotos de Muylaert evocam, no entanto, a realidade somente em certa medida: elas transformam uma lâmpada de poste, precário, em uma lua esgarçada e vice-versa. Elas desfiguram o traçado das ruas, de suas pistas e prédios, de seus arabescos, do céu noturno e igualmente transformam avenidas em becos sem saída, apontando para os impasses de agora. São gestuais, cinematográficas, quase acromáticas, o que lhes confere contundência. As luzes, no fundo preto, noturno, são manchas, em seu duplo sentido: o de borrão e o de mácula, deslustre, numa crítica à situação “desvairada”, na acepção de pobreza e caos, das cidades e do mundo e da própria arte, hoje, com exceções, muito bem comportada.
Régis Bonvicino,
15.01.2006
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