| O VELHO E OS LOBOS DE KRISTEVA
Julia Kristeva, psicanalista de origem e profissão, é, de fato, uma pensadora, que conseguiu reunir em suas reflexões a linguística, a semiótica, a filosofia e a psicoanálise. Seu livro “Soeil noir” ( “Sol negro / Melancolia e Depressão” ), de 1987, é bastante conhecido no Brasil. Nascida em 1941 na Bulgária, mudou-se para Paris em 1965, onde se filiou ao grupo da revista “Tel Quel”. É casada com o escritor Philippe Sollers, que, hoje, já não mais significa “vanguarda”, na França.
“O Velho e os lobos”, publicado em 1991, é obra de ficção, na qual, creio, Kristeva tenta traduzir, para a prática, questões que se propôs e respondeu em teoria. Entre elas, a de captar os “estados de instabilidade” do sujeito, na linguagem, para além de dualismos ( masculino/feminino ) ou das normas de convivência, que o reduzem ao mecânico. Ela representa, portanto, uma das estratégias possíveis de se tentar definir ser e arte, no mundo pós-estruturalista, ao reintroduzir o “físico” ( e seus fluxos e processos ) no centro do pensamento analítico e linguístico, por meio do que designa “Cora” ( expressão tomada de Platão ), chamando a atenção para os laços antigos do ser com o corpo da mãe, onde, em tais laços, ”identifica” a possibilidade da poesia. Kristeva foi buscar “inspiração” no romance policial (“noire”) para , mais do que construir, tramar seus personagens, entre eles o velho “Septicius Clarus”. E também promover violenta crítica ao mundo da “televisão”, em “Santa Bárbara” ( aqui, em virtude do conceito de “barbárie” ). Embora sendo um tanto esquemático, ”O velho e os lobos”, quase um ensaio livre, traz à tona pontos interessantes como o de até hoje o romance policial ser considerado pelo cânone francês como algo “menor”, jogado ao lado da “literatura de imigração”. Trata-se, portanto, de escolha ideológica, a de Julia Kristeva, procurando explorar o universo da “méstissage” e da “créolisation” e o aproximando do mundo dos laços antigos do ser com o corpo da mãe. Deste modo, se pode entender porque no meio do livro ela escreve :”Assim pode começar a narrativa do Velho e dos lobos, concebida de longe por um observador anônimo e oculto, que não é outro senão o autor dissimulado da aventura” ou então sentenças como “...o ódio encurva-se nas mulheres como um útero”.Sim, pois Cora ( os antigos laços do ser com o corpo da mãe ) é, para Kristeva,o único útero legítimo.Kristeva foi, ao lado de Jacques Lacan, Jean Baudrillard e outros, objeto de “desconstrução” recente por parte de Alan Sokal e Jean Bricmont que, numa revista de “estudos culturais” norte-americana, publicaram artigo no qual procuram mostrar como tais intelectuais “abusaram de terminologia e conceitos científicos, fora do seu contexto e sem a mínima justificação”. Esta ressalva poderia ser feita ao romance “O velho e os lobos” mas não vale a pena diante de um mundo cada vez mais destituído de pensadores.
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