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TEXTOS CRÍTICOS  
 

Repto incomum
Stein: Vanguarda e civilização
Identidades em conflito: 12 poetas catalães
Fábulas poéticas para os olhares de Nunca
Poesia nazi e o G8
Os cus de Judas
Crônicas da Era Bush, de Eliot Weinberger
Sexo e gênero em Parque industrial, de Pagú
Novelas, de Beckett: à esquerda da morte
Inventário de cicatrizes, de Alex Polari de Alverga
Julgamento de Ceausescu lembra obra de Ionesco
Murilo, Cabral e vice-versa
Um lugar para a voz do poeta
Dilatáveis desafiam a mídia
Em São Paulo - Lembranças fragmentárias da visita de Bob Creeley em 1996
León Ferrari versus Gregor Samsa
Sobre a poesia ortônima de Fernando Pessoa
As Obras-primas que poucos leram
Quatro Estrelas: Os Dogmáticos da Parvoíce
Botelho de Oliveira: um coadjuvante de Gregório e Vieira
Cultura e espetáculo em "A moda e o novo homem", de Flávio de Carvalho
• A morte de Bob Creeley
• Sobre Ungaretti / Daquela estrela à outra
• A Sibila de John Shade
• Ruína do próprio presente
• Poetas franceses da Renascença
• Sobre Eucanaã Ferraz
• Sobre Laís Corrêa de Araújo
• Sobre Jacques Roubaud
• Sobre Décio Pignatari
• Nejar: o aluno de Cervantes
• Boa noite, Paulicea, de Eduardo Muylaert
• Meu livro predileto
• Algumas tensões na figura de Haroldo de Campos
• A Geléia Geral do Estado na área da cultura
• O pesadelo do poder de civilização: a utopia brasileira de Mario Faustino
• A dança no topo do vulcão
• A vanguarda que se encarnou na história
• As sibilas de Henriqueta Lisboa
• Murilo Mendes e a poesia brasileira de hoje
• Mário Faustino
• Reverso: Eros, montagem e inovação em Mário Faustino
• Um lugar para José Paulo Paes
• A antropofagia de Tarsila do Amaral, Raul Bopp e Oswald de Andrade: uma estratégia brasileira para cultura e poesia num mundo globalizado
• Flávio de Carvalho: ambição de sentidos nos tristes trópicos
• Nuno Ramos: literalidade, inovação e renovação
• A função da poesia
• A Querela do Brasil
• O Olho da Consciência
• Ensaio sobre Timor Leste
• Tantas máscaras
• The displacement of the "scholastic": new Brazilian poetry of invention
• Borges: o poético e a poesia
• Nota sobre Drummond
• Esplendor & sepultura
• Bakhtin, o corpo, Creeley e Girondo
• O retrato de Fabius Naso
• Estado actual e creativo da lingua portuguesa en Brasil
• Entrega de Macau é metáfora da língua portuguesa ameaçada
• Despoesia, Augusto de Campos, 1994
• Crisantempo
• Joan Brossa: um diálogo com João Cabral
• Poesia completa de Raul Bopp
• Meu tio Roseno, a cavalo, de Wilson Bueno
• Kaiko: um pouco de Leminski
• A idéia totalitária de "canône"
• Valente
• Sobre Júlio Bressane
• O velho e os lobos de Kristeva

 

NOTAS DE VIAGEM: DE SARKOZY A GAUDÍ
Régis Bonvicino

Cheguei a Paris no dia 3 de novembro e, após deixar as malas no apartamento de Nelson da Silva Jr., psicanalista paulistano, na rue de Bièvre, em Saint German, corri ao Café de Flore, para me encontrar com os poetas Michel Deguy e André Spears – este um norte-americano-francês-grego que reside entre Paris e Nova York, e aquele, já perto dos oitenta anos, um poeta bastante conhecido e reconhecido. Não corri por afoiteza e submissão “colonizada” ou “literária”, mas porque o vôo havia se atrasado três horas. O comandante do jato da Air France atribuiu a culpa, evidenciando preconceito num inglês estropiado, a uma tropical storm em São Paulo, ressalvando, óbvio, seu empregador. Nelson da Silva Jr. fez análise com Pierre Fedida e estudou por muitos anos em Paris. Seu pequeno apartamento, alugado, que me abrigaria por quatro dias e meio, situa-se na mesma rua onde residiu François Mitterrand. Na rue de Biévre, de um quarteirão, há apartamentos de todos os níveis, mas nenhum de luxo, o que revela a austeridade do ex-presidente francês. Ela fica ao lado da Notre Dame.

Darly, minha mulher, e Bruna, minha filha, apesar de esgotadas por quinze horas de “vôo”, exploraram as vizinhanças, enquanto eu conversava com Deguy e Spears. Deguy seguiria para o Festival de Poesia de Zagreb, dirigido pela poeta Sibila Petlevski, domingo muito cedo. Embora breve, a conversa revelou seu bom humor e vivacidade. Disse que preferia vir comigo a Barcelona, mas que não lhe restava outra opção... Quando cheguei ao café, não pude cumprimentá-lo de imediato: alguém o ofendia por seus escritos ou poemas. Não entendi bem a situação. Deguy se foi, com inveja de mim, porque, convidado para Zagreb, recebi logo depois um convite da Casa América Catalunya, de Barcelona, para onde iria de Paris e ficaria dez dias.

Poesia suja

Spears me levou à livraria La Hune, ao lado do Café de Flore, para que eu comprasse a recentíssima edição de Un coup de dés jamais n’abolira le Hasard, manuscrits et épreuves, de Stéphane Mallarmé, que segue, mais de cem anos depois de sua morte, como o maior poeta francês de vanguarda. Un coup de dés foi a principal referência “antiliterária” para a poesia concreta brasileira dos anos 1950 – há muito, ela, poesia concreta, um museu de si mesma. E para todos os melhores poetas do pós-guerra.

Extrai-se da edição dos manuscritos e provas do livro de Mallarmé, datado de 1897, e publicado na revista Cosmopolis, que se trata de um poema sujo, callejero, como se diz em espanhol, ao incorporar as manchetes e tipos de jornal, para “destruir” o verso e a métrica gramaticais. O poema, que se inicia com “Soit/ que/ l’abime [...]” está bem traduzido por Haroldo de Campos para o português. Talvez esta seja sua única tradução “solo” bem equacionada, sóbria e criativa. E Un coup de dés não é “sujo”, frise-se, no sentido do Poema sujo, de Ferreira Gullar – este um trabalho infinitamente menos inovador e de recepção mais local. É interessante ver a caligrafia de Mallarmé, suas correções etc.

Bush, Hitler, Sarkozy e a nova Disney

No Café de Flore, a conversa girou igualmente em torno da “pós-modernidade”, que levou o mundo “a um esvaziamento político e cultural”, em conclusão dos três interlocutores. Um clichê, talvez. E em torno das próximas eleições norte-americanas. Spears, que vota nos Estados Unidos, espera por Gore “in the last minute”. Se eu fosse cidadão norte-americano, votaria em Obama. Aqui em Barcelona, onde escrevo neste domingo à noite, encontrei no hotel Dante onze negras de Chicago, cidade de Obama – quase todas preferem Hillary Clinton. A vitória dos democratas parece certa, como dois mais dois são quatro. Agora mesmo, com as denúncias de corrupção e “torturas” praticadas pelo chefe de polícia de Nova York durante a gestão Giuliani, o mais forte candidato republicano, desgastam-lhe a candidatura. Bush é visto, em toda parte, como uma espécie de Hitler. Hoje, 12 de novembro, El País, o mais importante jornal espanhol, estampa matéria com o marroquino Lahcen Ikassrien, que esteve quatro anos detido em Guantánamo. O homem, que teve o braço esquerdo partido ao meio por um míssil no Afeganistão, revela Guantánamo por dentro: suas torturas medievais. O isolamento, sem luz e água por mais de uma semana, é ainda a tortura mais branda na cultura do presídio político.


Antes as pessoas observavam assim La Gioconda

Paris está, sim, esvaziada política e culturalmente. Seus museus, com o melhor e o maior acervo do mundo, transformaram-se em um negócio, entrelaçado com a indústria do turismo, da aviação, e com a das câmeras fotográficas e filmadoras. Está, como sempre, infestada de japoneses, que não conseguem encarar o “estrangeiro” sem uma câmera. O Louvre tornou-se uma espécie de “Guantánamo”: além de já ser em si um labirinto, um corredor polonês, os incontáveis japoneses, com seus flashs, impedem que os quadros sejam observados com tempo e reflexão. Casais de namorados pedem a amigos para lhes tirar fotos. Há carrinhos de bebês em todas as alas, com choro e estridência. Saí do museu atônito, perplexo, sem nenhuma vontade de retornar. Fui ao D’Orsay no dia seguinte. Percebi que os japoneses e todos os demais estrangeiros preferem fotografar os quadros grandes. Luxe, calme et volupté, uma obra-prima de Matisse, de pequena dimensão, é ignorado e, por isso, pude desfrutá-lo a sós, por uns minutinhos. A preferência por fotografar os grandes evidencia superficialidade e megalomania, e eles são mais fáceis, ao cabo, de serem fotografados, para se alojarem em Orkuts, em páginas de fundo de computadores etc. D’Orsay foi uma estação de trem. E não uma qualquer. Por ela retornaram à França os judeus libertos dos campos de concentração e os soldados franceses que lutaram na Segunda Grande Guerra. Hoje, como o Louvre, D’Orsay tornou-se uma Disney. A França deve 64% de seu pib. Cresce 1,5% ao ano. Os franceses detestam trabalhar. Sarkozy fala muito e, segundo os franceses, até agora nada fez de prático. Está desesperado ante a ameaça russa e, por isso, ajoelhou-se diante de Bush, em Washington, semana passada, exaltando a otan, para proteger La France dos mísseis de Moscou e também para ocupar o lugar de Tony Blair; em outras palavras, para transformar a França no mais novo estado da federação norte-americana. Os grafites parisienses são pobres em termos plásticos e não trazem mensagens políticas, como os espanhóis de Barcelona. Em Barcelona, li num deles: “No al acoso publicitario”. Comunistas e socialistas são sanguessugas do Estado. A direita, igualmente. Paris está caríssima para um brasileiro de classe-média como eu.


Carla Bruni

Almocei, no domingo, com o poeta Claude Royet-Journoud, que, depois de anos residindo na rue de la Harpe, em Saint German, empobrecido, mudou-se para o bairro de Saint Dennis, de africanos, aqueles mesmos que queimaram automóveis quando Sarkotudo, como lhe chamam os espanhóis, era Ministro do Interior (Justiça) da França. Claude, como Jacques Roubaud, é poeta de “vanguarda”. Este do grupo Oulipo. Ambos fazem uma poesia de alta qualidade, que, todavia, não dialoga com a Paris de hoje, com suas ruas sujas, com seu esvaziamento cultural, e sim com Mallarmé e com questões de poesia pura, teórica, talvez num movimento de contrafuga musical. Da casa de Claude tomei o metrô – muito pior que o de São Paulo – para ir a Montmartre. O metrô, como o Louvre, é um labirinto, todavia tenso, politicamente tenso. Parece que as tensões se concentram e se abafam nele, ou seja, no subterrâneo. Como não consegui pegar o trem correto, desci e subi a pé até a igreja de Sacré-Coeur. Senti na pele o que é hoje o conflito parisiense. Várias vezes pensei que Darly e Bruna seriam raptadas e estupradas. Cheguei esgotado ao topo da montanha. Achei Paris, vista de lá, feia. Como o Rio, com sua violência. A violência descaracteriza qualquer beleza. Não reconheci o Montmartre de François Truffaut. Estou velho para esta nova Paris morta. Havia uma multidão de turistas do mundo todo, com suas filmadoras e câmeras: a vida mediada, a certa distância. Vi um exemplar do Le Monde jogado ao chão. No avião, o havia lido e achado uma droga, muito pior que O Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo e o Globo.


Café Les Deux Magots

Ao lado do Café Les Deux Magots, em Saint German, onde, em sucessivas épocas, Mallarmé, Verlaine, Rimbaud, Max Ernest e os dadaístas, Sartre, Beauvoir e Ponge escreviam, há uma loja Louis Vuitton e outra Dior. Uma echarpe custa ao redor de setecentos euros. E os poetas, como Deguy, são “ofendidos” nos cafés. Um bom sinal, até. A livraria Shakespeare & Co., ao lado da Notre Dame, onde James Joyce escreveu parte de Finnegans Wake, resiste, no entanto, oprimida, esmagada. Beckett, para os turistas, e escritores também, é uma grife, imagino. Joyce? Quem será Joyce?  Chegar a Barcelona foi um alívio.

 

NACIONALISMO E SEPARATISMO CATALÃO

A poesia catalã, desde a morte de Joan Brossa, não produz um poeta de primeira linha. Aliás, há um livro dele à venda em La Central, situada na calle Mallorca, a melhor livraria de Barcelona – bem cosmopolita, com livros em várias línguas. O volume chama-se La piedra abierta, editado pela prestigiosa Galáxia Gutemberg, coleção reservada aos “clássicos”. Brossa pertenceu ao grupo Dau al Set, com Tàpies, Joan Ponç e João Cabral de Melo Neto, que funcionava como um guru para eles. João Cabral está traduzido para o espanhol e o catalão em pequenos livros. A poeta catalã Cinta Massip diz que o poema – esqueço-me o título – com o refrão “a palo seco” captou melhor o flamenco do que Lorca os ciganos. É um baita elogio. Há antologias da nova poesia catalã, como Sol de sal, editada por Jordi Virallonga. Transcrevo um poema, em espanhol, do poeta Enric Sòria, intitulado “Constatación”:

No soy mejor que tu, lo sé,
no lo pretendo
ni he inventado la pena y ni el tedio
ni quizás escogí nunca
ninguno de mis hábtitos más íntimos

Es totalmente inútil fingir que me interessa
algo de ti, criatura meramente humana
(como yo al fin y al cabo, que te busco y te ignoro)
más allá del banal enigma de tu cuerpo.

Tem nível mediano, como a poesia contemporânea brasileira – inflexão epígona. Joan Navarro é um poeta catalão, de Valência. Hermético e muito simbólico, beirando o kitsch, ele defende mal sua minoritária língua, de nove milhões de falantes. Uma língua minoritária precisa de poemas complexos, mas claros. Autores como Navarro levarão o català à extinção. E, por isso mesmo, melhor falar da questão central da Catalunha, seu nacionalismo e seu separatismo, que, inclusive, recruta e mobiliza poetas e escritores, como se viu na última Feira de Frankfurt (2007).

Não há partidos fortes de direita na Catalunha do Sul, que pertence à Espanha. Ela é governada por uma coalizão de esquerda e centro-direita, liderada pela Esquerra Republicana, que impôs a todos os setores da sociedade falar català, das empresas às universidades, num processo chamado de “imersão lingüística” – totalitário. A Catalunha é rica e, no fundo, seu separatismo visa a obter mais dinheiro de Madri e/ou deixar a burguesia local ter controle exclusivo sobre seu orçamento. Não é como o País Vasco, bélico, armado. É político. E manejado por uma elite de políticos e intelectuais. A esmagadora maioria do povo catalão quer seguir Espanha. Sintam a que ridículo chegam as coisas. Transcrevo o trecho do livro El català perseguit, de David Pagès: “El Fútbol Club Barcelona y el bilingüismo se tenieron de polémica ya que Samuel Eto’o se negó a una pregunta en catalán formulada por un periodista [...]. Días después Eto’o tuvo que pedir perdón”.

Os cubanos em Barcelona

Rolando Sánchez Mejias, de 48 anos, é um dos maiores escritores vivos. Está exilado em Barcelona, embora já tenha adquirido cidadania espanhola. Os cubanos precisam de apenas dois anos de residência para obtê-la. Rolando é ficcionista, poeta e crítico. Fundou e dirigiu, em Cuba, no início dos anos 1990, a revista Diásporas. Em Cuba, é crime tipificado lançar uma revista sem o aval do Estado, como ele fez. Faziam parte de Diásporas, entre outros, Pedro Marqués de Armas, Carlos Aguilera e Rogelio Saunders – este escreveu o único artigo, até hoje, sobre o fascismo em Cuba. Aguilera vive na Alemanha e os outros dois também em Barcelona. Em 1993, Sánchez Mejias escreveu uma carta aberta contra a censura em Cuba e contra o regime castrista, morando em Havana. A carta foi publicada em El País, de Espanha. Em represália, foi apenado com “morte civil”. Escapou da prisão por ser considerado pelo pcc cubano como “homem de esquerda”. Viveu quatro anos em Havana, seguido e perseguido pela polícia política. Perdeu empregos e amigos. Em 1987, o poeta francês Henri Deluy convidou-o para a Bienal de Val-de-Marne (onde estive em 1995) e, então, depois do evento, ele se refugiou na Alemanha. O Parlamento Europeu ofereceu-lhe três cidades para residir e ter uma bolsa por dois anos: Viena, Veneza e Barcelona. Escolheu Barcelona. Como cidadão espanhol, cansou-se das imposições da Esquerra Republicana e publicou no website da revista Sibila, <http://sibila.com.br>,a “Carta no nacionalista”, em defesa de Cristina Rossi, demitida de uma rádio por não falar catalão,  coisa que, há mais de dois meses, cria polêmica. Leiam dois poemas de Rolando traduzidos por mim, a seguir. Outro belíssimo poeta é Pedro Marqués de Armas, um médico psiquiatra que viveu na Itália e em Portugal. Está entre os melhores poetas jovens que li, com uma poesia dura, de cortes abruptos, rosseliniana. Leiam poemas dele em Sibila 12.

Nota narcísica: Sábado, 11 de novembro, saiu matéria sobre mim e sobre as leituras em El País, uma página inteira, com foto e tudo o mais. Barcelona me fez esquecer o “pesadelo Paris”, com seus mendigos brancos, franceses, seus Vuittons, sua morte cultural. Sintomas da era Chirac? Talvez tenha visto urubus no céu de Paris.

 

O CAMP NOU OU POR QUE SE CALAM OS ESCRITORES CATALÃES?

Cheguei a Barcelona no dia 7 de novembro, vindo do “estelionato Paris”, e um dos lugares que programei para conhecer foi oCamp Nou, do Barcelona. Numa tarde ensolarada, peguei o metrô e fui realizar “um sonho”, porque, daqui do Brasil, ele é “vendido” como um estádio, para usar o clichê, de “primeiro mundo”. Glamour e estrelas! As estações de metrô, embora os trens sejam excelentes, são distantes umas das outras e demorei para chegar lá. O Barcelona representa o que se chama de “novo catalanismo”, ou seja, a força do separatismo da Catalunha de Espanha. O outro clube da cidade chama-se Español, que, à força, mudou seu nome para Espanyol, e foi obrigado a ceder seu estádio, o Sarriá, onde o Brasil foi eliminado pela Itália na Copa do Mundo de 1982, para a construção de condomínios de luxo. Num deles, residiu João Cabral de Melo Neto nos anos 1960, quando de sua segunda passagem por Barcelona. Sua primeira passagem, de 1947 a 1951, foi fundamental. Nela imprimiu o primeiro livro de Joan Brossa, estreitou-se com Miró, tornou-se uma espécie de mentor intelectual de Tàpies e, sua casa, na calle Muntaner, graças a suas imunidades diplomáticas, transformou-se em sede da resistência ao franquismo e ponto de encontro de vários artistas, entre eles o mesmo Miró, como relata-me sua filha Inez Cabral de Melo: “Oi, Régis, quanto à Barcelona, quando nasci, ele, João Cabral, nós, morávamos na calle Muntaner. Ficamos lá de 1947 a 1951. Da segunda vez, moramos num condomínio moderno, em Pedrallbes. Eu tinha dezenove anos e fazia programas com os amigos de meu pai, exceto o Miró. Como qualquer adolescente, meu papo era sobre Rolling Stones, Beatles, Bob Dylan, abaixo Franco!. Eu não lia João Cabral, lia Prévert e Rimbaud, autores aos quais ele me introduzira”. Ou seja, até em sua segunda estada, Cabral estimulava a luta contra Franco.

Nacionalismo e separatismo catalão. Lembrei-me de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino e do consistente dicionário de política, de 1.300 páginas, que editaram. Lembrei-me, vagamente, da definição de nacionalismo lançada por eles e fui, depois da visita, buscá-la na internet:

O princípio democrático e o princípio nacional, de fato, foram se afirmando contemporaneamente, na Europa, durante a Revolução Francesa. É necessário, porém, distinguir claramente os respectivos objetivos. Enquanto o valor perseguido pelo princípio democrático é o da igualdade política, o objetivo do princípio nacional é colocar o Estado nas mãos do povo.

Bobbio e seus parceiros acrescentam: “o termo nacionalismo designa a ideologia nacional, a ideologia de determinado grupo político, o Estado nacional, que se sobrepõe às ideologias dos partidos, absorvendo-as em perspectiva”.

Hoje, a Catalunha é dirigida pela Esquerra Republicana y Convergencia Democrática (centro), em coalizão com outros pequenos partidos de esquerda, que decidiram abrir fogo contra Madri por meio de uma política lingüística, que obriga a todos a aprender o catalão. A coisa chega ao ponto de os empresários serem obrigados a fazer negócios com o Governo em catalão. É a chamada “imersão lingüística”, que usurpa oitenta milhões de euros do orçamento governamental e cooptou quase todos os escritores catalães, que recebem cargos e bons salários do Governo. Soube, por Rolando Sánchez Mejías, o Rolo, quando passeávamos à noite por El Ravall, que a poeta Susana Raffart fez uma leitura em homenagem ao aniversário do poeta Joan Maragall (nascido em 10 de outubro de 1860), autor de “Oda a España”, um poema separatista, diante de seu túmulo. Haja submissão! E morbidez. Apesar de os catalães quererem mais autonomia, a maior parte deles quer seguir espanhola. Catalunha sem Espanha seria uma espécie de Portugal – mais um pequeno país da Europa, o que interessa aos Estados Unidos, que, há pouco, “compraram” a Guiné Bissau, colônia lusa até 1975, para lá instalar todo um sistema de radares que controla todo o oceano Atlântico.

Paguei dezesseis euros e entrei no Camp Nou. Seu gramado é menor do que o do Palestra Itália e o estádio em si é muito pior do que o Morumbi e muito mais feio do que o Pacaembu. Vários lances de arquibancada foram construídos uns sobre os outros sem planejamento e o estádio está repleto de anúncios. Senti-me num supermercado hitleriano. Decepcionado, inclusive, com a loja, suja e caríssima, fui tomar um lanche em Pan & Company, ainda dentro do estádio.

O separatismo catalão é como o Barcelona: puro marketing. Há um caderno sobre a Catalunha distribuído aos visitantes do estádio e seu dístico resume tudo: “La fuerza de la identidad”, porque o Governo catalão substituiu o enfrentamento da realidade pela “luta” pela identidade, segundo ele, roubada por Madrid, e governa para uns 10% da população, que se pretendem libertos do “colonialismo” espanhol, sob o argumento do massacre à língua catalã. O espantoso é que, quase todos os escritores, deixaram-se cooptar pelo Governo. Diferentemente do Brasil, onde os políticos representam interesses econômicos, corrupta e perversamente, na Catalunha os empresários estão divorciados dos políticos. Leiam o seguinte: “Los empresarios catalanes, que tradicionalmente han liderado la industrialización de España, despiertan ante una nueva realidad. No sólo las infraestructuras que fallan en cadena, y que han elevado el tono como nunca a las patronales catalanas contra la insuficiente inversión del Estado en Cataluña”. No mesmo El País, de 18 de novembro, que lia no avião, retornando ao Brasil, os empresários pediam o fim da cultura do “en poco a poco y con buena letra”, para reivindicar apoios à Generalitat para fusões, inovações, sócios estrangeiros, agressividade, internacionalização etc.

O Barcelona representa fielmente o separatismo catalão de José Montilla, presidente da Generalitat, ou seja, o elenco é formado basicamente por estrangeiros como Ronaldinho, Eto’o, Messi, Henry: um separatismo de fachada, de marketing, um separatismo medieval, que, com isso, ignora a realidade pobre da Grande Barcelona, de 4,5 milhões de habitantes e 33 municípios, carentes de mais transportes, apoio social etc. A Barcelona dos turistas se resume a uma dúzia de Ramblas, globalizadas, e mais a praça de Catalunha, o Passeig de Gràcia, Mare Magnum, Vila Olímpica, Monjuic, onde está o Museu Miró etc. E, nelas, pouco a pouco, a arquitetura para o morador local, como observa a arquiteta fluminense Ester Limonad, vai cedendo espaço à uma arquitetura for export, lado a lado com as velhas edificações, várias delas mal preservadas. O símbolo dessa mentalidade separatista medieval-pós-moderna é, para mim, a Torre Agbar, do arquiteto francês Jean Nouvell. Um edifício em forma de  foguete, obviamente americanizado, em plena cidade de Gaudí e Miró! O edifício é tão abstrato quanto a “política de identidade” adotada por Montilla. Anota Limonad: “A cidade não é mais pensada para o uso de seus habitantes, mas para o consumo global, e tais práticas transformaram-na em um patchwork, onde o novo se superpõe e cola-se ao antigo, destruindo a história dos lugares”. Barcelona ainda tem um dos mais ricos patrimônios históricos da Europa. E, curioso, podem-se ver roupas secando nos varais dos bairros chiques da cidade, apesar de tudo.

La Porta, o presidente do Barcelona, contratou o arquiteto Norman Foster para reformar o Camp Nou (Campo Novo), que data de 1957. Foster quer que o estádio tenha “uma segunda pele inspirada nos trencadís do Park Guell, de Gaudí”, com estalido de cores, no caso, o azul e o grená. Diz La Porta: “[...] de la misma forma que el Camp Nou fue una joya arquitectónica que se avanzó a su tiempo, ahora, se proyecta hacia al futuro”.

Qual será o futuro da língua catalã com escritores tão cooptados e submissos como Susana Raffart, Joan Navarro, Gemma Gorga, Enric Sòria, que se negam ao debate público e a discutir, por exemplo, a “Carta no nacionalista”, de Mejías e Sibila?1

Como a língua catalã se “projetará ao futuro”? O maior prosador catalão vivo foi, até há pouco, o chileno Roberto Bolaño (1955-2003), e agora é Jonathan Littell, um nova-yorkino, nascido em 1967. Talvez os melhores poetas de Catalunha sejam os cubanos Rolando Sánchez Mejías e Pedro Marqués de Armas. De nada vale enviar 101 escritores medíocres e fâmulos para a Feira de Frankfurt, outra mostra das prioridades nazi-identitárias de Montilla (recorde-se que a Índia, quando homenageada, mandou 31 autores!). Há alguns poetas barcelonenses a serem ressalvados, como Iván Humanes Bespín, que entendeu que o século xxi deve ser o século da pluralidade e da tolerância, da riqueza da convivência entre línguas e nacionalidades, e não de retrocessos medievais marqueteiros, como o da elite política catalã, que não admite o castelhano, os imigrantes, o diálogo etc., com seu nacionalismo perigoso – verdadeira arma de destruição das massas catalãs. Não se compreende a Espanha sem o vasco, o catalão, o galego e o espanhol. Uma língua oficializada não vive, sobrevive às custas de melhores condições de vida dos próprios catalães. O Estado catalão (Generalitat), para retomar Bobbio, não está nas mãos do povo, como no Brasil de Lula da Silva (a maior fraude da história recente do país) ou na Venezuela do “Leoncito de Castro” Hugo Chávez. Ao menos, uma boa parte dos escritores brasileiros e venezuelanos não se deixa cooptar.

 

1: Cf. “Carta no nacionalista”, em Sibila, <http://sibila.com.br>.

 

EL CAMP NOU O ¿POR QUÉ SE CALLAN LOS ESCRITORES CATALANES?

Llegué a Barcelona el día 7 de noviembre, procedente del “estelionato París”, y uno de los lugares que programé para conocer fue el Camp Nou. En una tarde soleada tomé el metro y fui a realizar “un sueño”, porque en Brasil es “vendido” como un estadio, para usar el cliché, de “primer mundo”. ¡Glamour y estrellas! Aunque los trenes son excelentes, las estaciones del metro se encuentran distantes unas de otras, y demoré para llegar. El Barcelona representa lo que se llama de “nuevo catalanismo”, o sea, la fuerza del separatismo de Cataluña con respecto a España. El otro club de la ciudad se llama Español, que cambió su nombre a la fuerza por Espanyol, y fue obligado a ceder su estadio, el Sarriá, donde Brasil fue eliminado por Italia en la Copa del Mundo de 1982, para la construcción de condominios de lujo. En uno de ellos residió João Cabral de Melo Neto en los años 1960, durante su segunda estancia en Barcelona. Su primer viaje, de 1947 a 1951, fue fundamental. Allí imprimió el primer libro de Joan Brossa, estrechó vínculos con Miró, se convirtió en una especie de mentor intelectual de Tapiès, y gracias a sus inmunidades diplomáticas, su casa, en la calle Muntaner, se transformó en sede de la resistencia al franquismo y en punto de encuentro de varios artistas, entre ellos el propio Miró, como me ha relatado su hija Inez Cabral de Melo: “Hola, Régis. Sobre Barcelona, cuando nací, él, João Cabral, nosotros, vivíamos en la calle Muntaner. Estuvimos allá de 1947 a 1951. La segunda vez residimos en un condominio moderno, en Pedrallbes. Yo tenía diecinueve años y salía con los amigos de mi padre, excepto con Miró. Como cualquier adolescente, mi asunto era Rolling Stones, Beatles, Bob Dylan, ¡abajo Franco!. No leía a João Cabral, leía a Prévert y a Rimbaud, autores que él me dio a conocer”. O sea, hasta en su segunda estancia en Barcelona, Cabral estimulaba la lucha contra Franco.

Nacionalismo y separatismo catalán. Me acordé de Norberto Bobbio, Nicola Matteucci y Gianfranco Pasquino, y del consistente diccionario de política, de 1.300 páginas, que ellos editaron. Recordé vagamente la definición de nacionalismo lanzada allí y, después de la visita, la busqué en internet:

El principio democrático y el principio nacional, de hecho, se fueron afirmando contemporáneamente en Europa durante la Revolución Francesa. Sin embargo, es necesario distinguir claramente los respectivos objetivos. Mientras que el valor perseguido por el principio democrático es el de la igualdad política, el objetivo del principio nacional es el de colocar al Estado en manos del pueblo.

Bobbio y sus colaboradores afirman además: “[...] el término nacionalismo designa a la ideología nacional, la ideología de determinado grupo político, el Estado nacional, que se sobrepone a las ideologías de los partidos, absorbiéndolas en perspectiva”.

Hoy, Cataluña es dirigida por la Esquerra Republicana y Convergencia Democrática (centro), en coalición con otros pequeños partidos de izquierda, que decidieron abrir fuego contra Madrid por medio de una política lingüística, que obliga a todos a aprender el catalán. Esto llega al punto de que los empresarios sean obligados realizar sus negocios con el Gobierno en catalán. Es la llamada “inmersión lingüística”, que usurpa ochenta millones de euros del presupuesto gubernamental, y cooptó a casi todos los escritores catalanes, que reciben cargos y buenos salarios del Gobierno. A través de Rolando Sánchez Mejías, Rolo, cuando de noche paseábamos por El Ravall, supe que la poeta Susana Raffart realizó una lectura en homenaje al aniversario del poeta Joan Maragall (nacido el 10 de octubre de 1860), autor de “Oda a España”, un poema separatista, frente a su tumba. ¡Vaya sometimiento! Y morbosidad. A pesar de que los catalanes quieren más autonomía, la mayor parte de ellos quiere seguir siendo española. Sin España, Cataluña sería una especie de Portugal – un paisito más de Europa, lo que interesa a los Estados Unidos que, hace poco, “comprarón” a Guinea Bissau, colonia portuguesa hasta 1975, para instalar allí un sistema de radares que controla todo el océano Atlántico.

Pagué dieciséis euros y entré en el Camp Nou. Su césped es menor que el del Palestra Italia y el estadio en sí es mucho peor que el Morumbi, y mucho más feo que el Pacaembu. Varios escalones de las gradas fueron construidos unos sobre otros sin planeamiento, y el estadio está repleto de anuncios. Me sentí como en un supermercado hitleriano. Decepcionado inclusive con la tienda, sucia y carísima, fui a merendar en Pan & Company, todavía dentro del estadio.

El separatismo catalán es como el Barcelona: puro marketing. Existe un folleto sobre Cataluña que es distribuido a los visitantes del estadio, y su dístico lo resume todo: “La fuerza de la identidad”, porque el Gobierno catalán sustituyó el enfrentamiento de la realidad por la “lucha” por la identidad, según él, robada por Madrid, y gobierna para un 10% de la población, que se pretende libertada del “colonialismo” español, bajo el argumento de la masacre a la lengua catalana. Lo espantoso es que casi todos los escritores se han dejado cooptar por el Gobierno. Diferente de Brasil, donde los políticos representan intereses económicos, corrupta y perversamente, en Cataluña los empresarios están divorciados de los políticos. Lean lo siguiente: “Los empresarios catalanes, que tradicionalmente han liderado la industrialización de España, despiertan ante una nueva realidad. No sólo las infraestructuras que fallan en cadena, y que han elevado el tono como nunca a las patronales catalanas contra la insuficiente inversión del Estado en Cataluña”. En el propio diario El País, del 18 de noviembre, que leía en el avión de regreso a Brasil, los empresarios pedían el fin de la cultura del “en poco a poco y con buena letra”, para reivindicar apoyos a la Generalitat para fusiones, innovaciones, socios extranjeros, agresividad, internacionalización etc.

El Barcelona representa fielmente el separatismo catalán de José Montilla, presidente de la Generalitat, o sea, el elenco está formado básicamente por extranjeros como Ronaldinho, Eto’o, Messi, Henry: un separatismo de fachada, de marketing, un separatismo medieval, que de ese modo ignora la realidad pobre de la Gran Barcelona, con 4,5 millones de habitantes y 33 municipios, carentes de más transportes, apoyo social etc. La Barcelona de los turistas se resume a una docena de Ramblas globalizadas; además de la Plaza de Cataluña, el Passeig de Gràcia, Mare Magnum, Villa Olímpica, Monjuic, donde está el Museo Miró etc. Y, en ellas, poco a poco, la arquitectura para los residentes locales, como observa la arquitecta fluminense Ester Limonad, va cediendo espacio a una arquitectura for export, lado a lado con las viejas edificaciones, varias de ellas mal preservadas. El símbolo de esa mentalidad separatista medieval posmoderna es, para mí, la Torre Agbar, del arquitecto francés Jean Nouvell. Un edificio en forma de cohete, obviamente americanizado, ¡en plena ciudad de Gaudí y Miró! El edificio es tan abstracto como la “política de identidad” adoptada por Montilla. Anota Limonad: “La ciudad ya no es pensada para el uso de sus habitantes, sino para el consumo global, y tales prácticas la transforman en un patchwork, donde lo nuevo se superpone y se adhiere a lo antiguo, destruyendo la historia de los lugares”. Barcelona tiene aún, uno de los patrimonios históricos más ricos de Europa. Y, curioso, se pueden ver ropas secándose en las tendederas de los barrios elegantes de la ciudad, a pesar de todo.

La Porta, el presidente del Barcelona, contrató al arquitecto Norman Foster para reformar el Camp Nou (Campo Nuevo), que data de 1957. Foster quiere que el estadio tenga “una segunda piel inspirada en los trencadís del Park Guell, de Gaudí”, con estallido de colores, en este caso, azul y granate. Dice La Porta: “[...] de la misma forma que el Camp Nou fue una joya arquitectónica que se avanzó a su tiempo, ahora, se proyecta hacia el futuro”.

¿Cuál será el futuro de la lengua catalana con escritores tan cooptados y sometidos como Susana Raffart, Joan Navarro, Gemma Gorga, Enric Sòria, que se niegan al debate público y a discutir, por ejemplo, la “Carta no nacionalista”, de Mejías y Sibila?1

¿Cómo la lengua catalana se “proyectará al futuro”? Hasta hace poco, el mayor prosador catalán vivo fue el chileno Roberto Bolaño (1955-2003), y ahora es Jonathan Littell, un newyorkino nacido en 1967. Tal vez los mejores poetas de Cataluña sean los cubanos Rolando Sánchez Mejías y Pedro Marqués de Armas. De nada vale enviar a 101 escritores mediocres y sumisos a la Feria de Frankfurt, otra muestra de las prioridades nazi-identitarias de Montilla. (¡Recuérdese que cuando la India fue homenajeada envió a 31 autores!). Hay algunos poetas barceloneses que debemos eximir, como Iván Humanes Bespín, que entendió que el siglo xxi debe ser el siglo de la pluralidad y la tolerancia, de la riqueza de la convivencia entre lenguas y nacionalidades, y no de retrocesos medievales marketeros, como el de la elite política catalana, que no admite el castellano, a los inmigrantes, el diálogo etc.; con su nacionalismo peligroso – verdadera arma de destrucción de las masas catalanas. No se comprende a España sin el vasco, el catalán, el gallego o el español. Una lengua oficializada no vive, sobrevive a costa de mejores condiciones de vida de los propios catalanes. Retomando a Bobbio, el Estado catalán (Generalitat) ya no se encuentra en manos del pueblo, así como el Brasil de Lula da Silva (el mayor fraude de la historia reciente del país) o la Venezuela del “Leoncito de Castro” Hugo Chávez. Al menos, una buena parte de los escritores brasileños y venezolanos no se dejan cooptar.

 

1: Cf. “Carta no nacionalista”, en Sibila, <http://sibila.com.br>.

 

CONVERSAS COM GAUDÍ

Em 1915, o então estudante de arquitetura catalão e, depois, arquiteto César Martinell Brunet, aproxima-se de Antoní Gaudí (1852-1926) em virtude de seu fascínio sentimental (mais do que consciente, como anota) pela construção da igreja da Sagrada Família. Gaudí deixara seus projetos de lado – o último deles, a estupenda casa La Pedrera – para tornar-se seu diretor, em 1883, um ano após o início de sua edificação, e devotar o resto de sua existência à construção do que é considerada sua obra-prima, baseada no uso inovador de formas geométricas naturais, com uma complexidade que dialoga com as artes egípcias, assírias, greco-romanas e arábicas do norte da África e, em particular, com a igreja de Santa Sofia, em Constantinopla.

La Pedrera é o nome popular da Casa Milà, construída entre 1906 e 1912, pensada por Gaudí como o corpo de um animal, sinuoso, onde os ossos serviram de modelos para as colunas e a pele para as fachadas exteriores. “Ela possui dois pátios internos; um circular e outro oval, que se comunicam entre si”, explica Brunet, acrescentando que não há uma linha reta sequer. Ainda segundo Brunet, a prefeitura tentou embargar a obra, por destoar do alinhamento urbano do Passeig de Gràcia, e o fez até 1909, quando a liberou. Há charges, da época de sua inauguração, que a mostram como estacionamento de aviões. As chaminés recordam vagamente figuras de Hieronymus Bosch, de O jardim das delícias, mas menos sombrias e muito mais lúdicas. Figuras de Bosch, aliás, presentes também, como pano de fundo, na obra de outro gênio catalão: Joan Miró, nesse caso com a ressalva de João Cabral de Melo Neto, em seu livro intitulado Joan Miró (Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura), de 1952: “creio que, mesmo sumariamente, o que constitui sua maneira de ele [Miró] compor não pode ser reduzido a leis”.

A importância do livro reside no fato de as notas de Brunet consistirem na única “entrevista” concedida por Gaudí em vida, que detestava escrever. Entrevista que vai de 1915 a 1926. Brunet registrou muito do pensamento artístico e científico de Gaudí e de suas reflexões sobre a Sagrada Família. Por exemplo: “Revela que esta porta será também policrômica; diz que cor é vida e a falta de cor é a manifestação mais visível da morte”. Gaudí falava constantemente da luz do “campo de Tarragona” a seu amigo Brunet, como uma luz superior que predispunha os catalães do litoral a uma visão plástica das coisas. A cidade de Tarragona fica ao sul de Barcelona. Gaudí e Brunet nasceram em Reus, que se situa, sentido interior, próxima à ela.

A igreja ainda está em obras, o que era previsto por Gaudí, que citava a Catedral de Colônia, “que esteve por centúrias sem abóbadas”. No momento, ergue-se sua torre principal. A impressão que tive, em novembro de 2007, quando fiz leituras de poemas em Barcelona, na Casa Amèrica Catalunya, foi a de que estava dentro do filme Roma, de Federico Fellini, especificamente na cena em que os trabalhadores do metrô descobrem um sítio arqueológico, com desenhos que se esvaem ao contato com a luz externa. A trilha sonora da visita consistiu no som de chiados ásperos de guindastes em manobra e de serras estridentes. Sagrada Família está viva não só por sua complexidade, mas porque, penso, Gaudí – um visionário – a previu como uma obra sempre em aberto, em movimento, como um móbile.

Na Quinta Güell, construída por Gaudí no final dos anos 1880 (Eusébio Güell foi próspero empresário que o apoiou incondicionalmente até sua própria morte) já se podem ver os trencadís. Os trencadís são colagens de azulejos quebrados de várias cores, rejuntados numa só peça. Cores “apreendidas” por ele em Tarragona, onde há um mirador ao lado de um anfiteatro romano do século ii a.C. Os trencadís (palavra catalã) ficam mais explícitos ainda no Parque Güell, realizado de 1900 a 1914. Nesse parque, Gaudí utilizou-se do procedimento ready-made, sem nem sequer conhecer Marcel Duchamp. Aproveitou as curvas do morro onde o parque foi traçado, aproveitou-se das plantas locais, usou as palmeiras como falsos pilares etc.

O que quero assinalar é que Picasso não teria composto Les demoiselles d’Avignon (1907) sem conhecer os trencadís. As meninas já se insinuavam em trabalhos como Margot ou La espera (1901), onde a prostituta é retratada em close com batom vermelho marcante, em lábios exagerados; ou em El abrazo (1901), onde homem e mulher, colados pelo abraço, fazem a perspectiva natural começar a se perder – ambos compostos em Barcelona. Picasso residiu por duas vezes em Barcelona antes de criar Les demoiselles d’Avignon e só se tornou Picasso após sua estadia na cidade, de 1899 a 1900. Antes, como no caso de Machado de Assis, era um pintor de alto nível, mas convencional (por duas décadas). Picasso freqüentou a Carrer d’Avinyó, em Barcelona, onde havia bares e bordéis. As meninas d’Avinyó são prostitutas dessa rua.

A Sagrada Família é uma dessas obras ímpares dos séculos xix, xx e, como segue, do xxi. Disse Gaudí a Brunet: “Afirma que a palavra é o tempo. [...] Através da palavra, vivenciamos épocas passadas e futuras”. As anotações de Brunet permitem-nos verificar que o catolicismo de Gaudí era dissociado de sua obra lúdica e que, como o historiador da arte Giulio Carlo Argan, prefeito de direito que recuperou Roma, Gaudí foi o prefeito de fato de Barcelona.

 

Conversas com Gaudí
César Martinell Brunet
São Paulo, Perspectiva, 212 p.

 

Casa Milà

Sagrada Família

Fotos: Régis Bonvicino

 

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